Axiomas de Separação
As noções de continuidade, subespaço, produto e quociente não exigem que pontos distintos possam ser distinguidos por abertos. Sem hipóteses adicionais, podem ocorrer situações ausentes em espaços métricos: pontos distintos podem ter as mesmas vizinhanças, sequências podem ter vários limites e conjuntos unitários podem não ser fechados.
Os axiomas de separação estabelecem condições para distinguir pontos por abertos. Partiremos da exigência de distinguir dois pontos e chegaremos à condição de Hausdorff, que exige vizinhanças disjuntas. Posteriormente, a separação entre pontos e fechados e entre pares de fechados levará às noções de regularidade e normalidade.
5.1 Separando pontos
\(X\) é Kolmogorov, ou \(T_0\), se, dados \(x\neq y\), existe um aberto que contém um deles e não contém o outro.
\(X\) é Fréchet, ou \(T_1\), se, dados \(x\neq y\), existe um aberto \(U\) com \(x\in U\) e \(y\notin U\), e existe um aberto \(V\) com \(y\in V\) e \(x\notin V\).
\(X\) é Hausdorff, ou \(T_2\), se, dados \(x\neq y\), existem abertos disjuntos \(U,V\) tais que \(x\in U\) e \(y\in V\).
As condições formam uma cadeia:
Cada passo acrescenta uma forma mais forte de distinguir pontos. Em um espaço \(T_0\), sabemos ao menos que dois pontos não têm exatamente a mesma informação topológica. Em um espaço \(T_1\), cada ponto pode ser excluído por uma vizinhança do outro. Em um espaço Hausdorff, os dois pontos podem ser isolados um do outro simultaneamente.
Um espaço indiscreto com pelo menos dois pontos não é \(T_0\).
O espaço de Sierpiński é \(T_0\), mas não é \(T_1\).
Todo espaço discreto é Hausdorff.
Todo espaço métrico é Hausdorff: se \(x\neq y\), tome \(r\lt d(x,y)/2\); então \(B(x,r)\) e \(B(y,r)\) são disjuntas.
Um conjunto infinito com a topologia cofinita é \(T_1\), mas não é Hausdorff. De fato, pontos são fechados, mas dois abertos não vazios sempre se intersectam.
A topologia de Zariski em \(\mathbb {R}^n\) é \(T_1\) e, para \(n\geq 1\), não é Hausdorff.
A condição \(T_0\) pode ser caracterizada pelos fechos dos conjuntos unitários.
Suponha primeiro que \(X\) seja \(T_0\) e sejam \(x\neq y\). Sem perda de generalidade, existe um aberto \(U\) com \(x\in U\) e \(y\notin U\). Então \(x\notin \overline{\{ y\} }\), pois \(U\) é uma vizinhança de \(x\) que não encontra \(\{ y\} \). Como \(x\in \overline{\{ x\} }\), os dois fechos são distintos.
Reciprocamente, se \(X\) não é \(T_0\), existem \(x\neq y\) tais que todo aberto que contém um deles contém também o outro. Assim, \(x\in \overline{\{ y\} }\) e \(y\in \overline{\{ x\} }\). Pela monotonicidade do fecho,
logo os fechos coincidem.
Para \(T_1\), a caracterização é dada pelo fechamento dos conjuntos unitários.
\(X\) é \(T_1\);
todo conjunto unitário \(\{ x\} \) é fechado;
todo subconjunto \(A\subset X\) é interseção dos abertos que o contêm.
Se \(X\) é \(T_1\) e \(x\in X\), então, para cada \(y\neq x\), existe um aberto \(U_y\) que contém \(y\) e não contém \(x\). Logo
é aberto, e \(\{ x\} \) é fechado.
Se pontos são fechados, então
uma interseção de abertos que contêm \(A\).
Finalmente, aplicando o terceiro item a \(A=\{ x\} \), para cada \(y\neq x\) algum aberto da interseção contém \(x\) e exclui \(y\). Trocando os papéis de \(x\) e \(y\) obtemos a condição \(T_1\).
A condição Hausdorff está ligada a resultados de unicidade. O primeiro exemplo é o limite de uma sequência.
Suponha \(x_n\to x\) e \(x_n\to y\), com \(x\neq y\). Escolha vizinhanças abertas disjuntas \(U\ni x\) e \(V\ni y\). A partir de certo índice, \(x_n\in U\); a partir de outro, \(x_n\in V\). Para índices suficientemente grandes teríamos então \(x_n\in U\cap V=\varnothing \), absurdo.
O mesmo princípio vale para funções: em contradomínios Hausdorff, uma função contínua fica determinada por seus valores num conjunto denso.
Suponha, por absurdo, que \(f(x)\neq g(x)\) para algum \(x\in X\). Escolha abertos disjuntos \(U\ni f(x)\) e \(V\ni g(x)\). O conjunto
é aberto, contém \(x\) e, portanto, encontra \(D\). Se \(d\in W\cap D\), então \(f(d)\in U\) e \(g(d)\in V\), mas \(f(d)=g(d)\), contradizendo \(U\cap V=\varnothing \).
5.2 Comportamento sob construções
Os axiomas de separação são propriedades topológicas e, portanto, são preservados por homeomorfismos. Resta examinar seu comportamento sob as construções básicas do capítulo anterior.
5.2.1 Subespaços
Se \(S\subset X\) e dois pontos de \(S\) são separados em \(X\) pelos abertos exigidos pelo axioma correspondente, as interseções desses abertos com \(S\) continuam abertas em \(S\) e preservam as mesmas relações de incidência e disjunção.
5.2.2 Produtos
Se \(x\neq y\) no produto, existe uma coordenada \(j_0\) tal que \(x_{j_0}\neq y_{j_0}\). Para \(T_0\) ou \(T_1\), use nessa coordenada os abertos que distinguem os pontos e tome suas imagens inversas pela projeção \(\pi _{j_0}\).
No caso Hausdorff, escolha abertos disjuntos \(U,V\subset X_{j_0}\) com \(x_{j_0}\in U\) e \(y_{j_0}\in V\). Então
são abertos disjuntos do produto contendo, respectivamente, \(x\) e \(y\).
A prova anterior mostra um princípio simples da topologia produto: para separar dois pontos, é suficiente usar uma coordenada em que eles diferem. Não é necessário restringir todas as coordenadas.
5.2.3 Somas
Dois pontos que pertencem ao mesmo somando são separados dentro dele e, como a inclusão do somando é um mergulho aberto, os mesmos abertos funcionam na soma. Se pertencem a somandos distintos, os próprios somandos são abertos disjuntos.
5.2.4 Quocientes
A passagem a um quociente pode deixar de preservar os axiomas de separação.
Mesmo \(T_0\) pode se perder.
Consequentemente, sem hipóteses adicionais, quocientes não preservam nenhum dos três axiomas de separação considerados aqui.
O círculo é Hausdorff, pois é métrico. Contudo, \(\mathbb {R}/\mathbb {Q}\), com a topologia quociente do grupo aditivo, tem a topologia trivial. Para ver isso, seja \(V\) um aberto não vazio do quociente e ponha \(U=\pi ^{-1}(V)\). O conjunto \(U\) é aberto, não vazio e satisfaz \(U+\mathbb {Q}=U\). Ele contém um intervalo aberto \(J\); pela densidade de \(\mathbb {Q}\), \(J+\mathbb {Q}=\mathbb {R}\). Logo \(U=\mathbb {R}\) e \(V=\mathbb {R}/\mathbb {Q}\). Como existem classes distintas, esse quociente não é \(T_0\), embora suas operações sejam contínuas.
Esse exemplo explica por que nossa definição de grupo topológico não impõe automaticamente um axioma de separação. Ele também contrasta com \(\mathbb {R}/\mathbb {Z}\cong \mathbb S^1\): \(\mathbb {Z}\) é fechado, enquanto \(\mathbb {Q}\) é denso e próprio.
5.2.5 Resumo
| Subespaços | Quocientes | Produtos | Somas | |
|---|---|---|---|---|
| $T_0$ | Sim | Não | Sim | Sim |
| $T_1$ | Sim | Não | Sim | Sim |
| $T_2$ | Sim | Não | Sim | Sim |
A condição de Hausdorff também pode ser caracterizada pela topologia produto: \(X\) é Hausdorff se, e somente se, a diagonal
é fechada em \(X\times X\). A demonstração é proposta como exercício.
Prove que \(X\) é Hausdorff se, e somente se, a diagonal \(\Delta _X\subset X\times X\) é fechada. Prove que \(X\) é \(T_1\) se, e somente se, para todo \(A\subset X\), \(A\) é a interseção de todos os abertos que o contêm. Seja \(X\) um espaço \(T_1\) e \(x\) um ponto de acumulação de \(A\subset X\). Mostre que toda vizinhança de \(x\) contém infinitos pontos de \(A\). Sejam \(\tau \subset \sigma \) topologias no mesmo conjunto \(X\). Para \(i\in \{ 0,1,2\} \), determine quais das seguintes implicações são verdadeiras: \((X,\tau )\) é \(T_i\) \(\Rightarrow \) \((X,\sigma )\) é \(T_i\); \((X,\sigma )\) é \(T_i\) \(\Rightarrow \) \((X,\tau )\) é \(T_i\). Seja Determine, para \(i=0,1,2\), se \((\mathbb {R},\tau )\) é \(T_i\). Mostre que, se toda sequência em \(X\) possui no máximo um limite, então \(X\) é \(T_1\). Mostre ainda que, se \(X\) é primeiro-enumerável, essa condição implica que \(X\) é Hausdorff. Seja \(X\) um espaço discreto. Mostre que, na topologia da caixa em \(X^{\mathbb {N}}\), toda sequência convergente é eventualmente constante. Considere \([0,1]\) e a relação Mostre que o quociente não é \(T_1\). Prove diretamente que produtos e somas arbitrárias de espaços \(T_0\) são \(T_0\).
A cadeia \(T_2\Rightarrow T_1\Rightarrow T_0\) reúne condições progressivamente mais fortes de separação, de \(T_0\) a \(T_2\). No capítulo seguinte, estudaremos outra propriedade das famílias de abertos: a possibilidade de descrever a topologia, local ou globalmente, por famílias enumeráveis.
5.3 Exercícios complementares
listas:src-039[Básico] listas:src-039 Seja \(X\) um espaço topológico. Mostre que \(X\) é \(T_1\) se, e somente se, \(\{ x\} \) é a intersecção de todas as vizinhanças de \(x\), qualquer que seja \(x \in X\).
listas:src-041[Básico] listas:src-041 Sejam \(\tau \) e \(\sigma \) topologias sobre um conjunto X tais que \(\tau \subseteq \sigma \). Seja, também, \(i \in \{ 1, 2\} \).
Se \((X, \tau )\) é \(T_i\), então \((X, \sigma )\) também o é?
Se \((X, \sigma )\) é \(T_i\), então \((X, \tau )\) também o é?
listas:src-042[Intermediário] listas:src-042 Seja \(X\) um conjunto infinito.
Seja \(\tau \) a topologia cofinita sobre \(X\). Mostre que \(\tau \) é a menor (no sentido da inclusão) topologia \(T_1\) sobre \(X\) — ou seja, mostre que \((X, \tau )\) é \(T_1\) e que se \(\sigma \) é uma outra topologia sobre \(X\) tal que \((X, \sigma )\) é \(T_1\), então \(\tau \subseteq \sigma \)).
Mostre que não existe uma topologia sobre \(X\) que é a menor topologia \(T_2\) sobre \(X\). [Sugestão: Fixe \(x_1, x_2 \in X\) distintos e sejam \(\tau _1\) e \(\tau _2\), respectivamente, as topologias apresentadas no Exercício 2.5. Mostre que \((X, \tau _1)\) e \((X, \tau _2)\) são \(T_2\), mas que \((X, \tau _1 \cap \tau _2)\) não é \(T_2\).]
listas:src-067[Intermediário] listas:src-067 Mostre que se \(\{ X_i : i \in I\} \) é uma família de espaços topológicos \(T_1\) (respectivamente, \(T_2\)), então \(\prod _{i \in I} X_i\) também é \(T_1\) (respectivamente, \(T_2\)) considerando \( \prod _{j \in J} {X_i}\) com a topologia produto ou com a topologia box.
listas:src-213[Avançado] listas:src-213 Seja \(X\) um espaço topológico.
Mostre que se \(X\) é \(T_2\), então toda sequência em \(X\) tem no máximo um limite.
Mostre que se toda sequência em \(X\) tem no máximo um limite, então \(X\) é \(T_1\).
Mostre que se satisfaz o primeiro axioma de enumerabilidade e é tal que toda sequência em \(X\) tem no máximo um limite, então \(X\) é \(T_2\).
listas:src-342[Básico] listas:src-342 Seja \((X,\tau )\) um espaço topológico. Prove que \((X,\tau )\) é \(T_1\) se, e somente se, para todo \(A\subseteq X\) existe \(\mathcal{U}\subseteq \tau \) não vazio tal que \(A=\bigcap \mathcal{U}\).
listas:src-343[Intermediário] listas:src-343 Seja \(X\) um espaço topológico. Mostre que \(X\) é \(T_1\) se, e somente se, dados \(A\subseteq X\) e \(x\in X\) arbitrários tais que \(x\) é ponto de acumulação de \(A\), tem-se que toda vizinhança de \(x\) contém infinitos pontos de \(A\).
listas:src-345[Avançado] listas:src-345
Sejam \(X\) um conjunto infinito e \(\tau \) a topologia cofinita sobre \(X\). Mostre que \(\tau \) é a menor (no sentido da inclusão) topologia \(T_1\) sobre \(X\) — ou seja, mostre que \((X,\tau )\) é um espaço \(T_1\) e que, se \(\tau '\) é uma outra topologia sobre \(X\) tal que \((X,\tau ')\) é um espaço \(T_1\), então \(\tau \subseteq \tau '\).
Mostre que não existe uma topologia sobre \(X\) que é a menor topologia \(T_2\) sobre \(X\).
[Sugestão: Exiba duas topologias \(\tau _1\) e \(\tau _2\) sobre \(X\) tais que:
os espaços \((X,\tau _1)\) e \((X,\tau _2)\) são \(T_2\);
\(\tau _1\cap \tau _2\) é a topologia cofinita sobre \(X\).]
listas:src-346[Avançado] listas:src-346 Considere as seguintes afirmações sobre um espaço topológico \(X\):
\(X\) é \(T_2\).
Toda sequência em \(X\) tem no máximo um limite.
\(X\) é \(T_1\).
Prove que:
\((i)\Rightarrow (ii)\Rightarrow (iii)\);
\((iii)\not\Rightarrow (ii)\not\Rightarrow (i)\);
se \(X\) tem caráter enumerável, então \((ii)\Rightarrow (i)\).
listas:src-347[Intermediário] listas:src-347 Seja \(X\) um espaço topológico. Prove que \(X\) é \(T_2\) se, e somente se, \(\{ (x,x):x\in X\} \) é um subconjunto fechado do produto \(X\times X\).
listas:src-358[Intermediário] listas:src-358 Seja \(X\) um espaço topológico. Mostre que:
\(X\) é \(T_1\) se, e somente se, para todo \(x\in X\) e todo sistema fundamental de vizinhanças abertas \(\mathcal{V}_x\) para \(X\) em \(x\), tem-se que \(\bigcap _{V\in \mathcal{V}_x}V=\{ x\} \);
\(X\) é \(T_2\) se, e somente se, para cada \(x\in X\), a intersecção de todas as vizinhanças fechadas de \(x\) em \(X\) é igual a \(\{ x\} \).
[Obs.: Note que isso não é equivalente à afirmação “para cada \(x\in X\), a família de todas as vizinhanças fechadas de \(x\) em \(X\) é um sistema fundamental de vizinhanças para \(x\) em \(X\)”.]
listas:src-359[Avançado] listas:src-359 Seja \(X\) um conjunto infinito.
Mostre que, se \(\tau \) é a topologia cofinita sobre \(X\), então \(\tau \) é a menor (no sentido da inclusão) topologia \(T_1\) sobre \(X\) — ou seja, mostre que \((X,\tau )\) é um espaço \(T_1\) e que, se \(\tau '\) é uma outra topologia sobre \(X\) tal que \((X,\tau ')\) é um espaço \(T_1\), então \(\tau \subseteq \tau '\).
Mostre que não existe uma topologia sobre \(X\) que é a menor topologia \(T_2\) sobre \(X\).
[Sugestão: Exiba duas topologias \(\tau _1\) e \(\tau _2\) sobre \(X\) tais que:
os espaços \((X,\tau _1)\) e \((X,\tau _2)\) são \(T_2\);
\(\tau _1\cap \tau _2\) é a topologia cofinita sobre \(X\).]
listas:src-379[Avançado] listas:src-379 Considere as seguintes afirmações sobre um espaço topológico \(X\):
\(X\) é \(T_2\).
Para cada sequência em \(X\), existe no máximo um ponto para o qual ela converge.
\(X\) é \(T_1\).
Prove que:
\((i)\Rightarrow (ii)\Rightarrow (iii)\);
\((iii)\not\Rightarrow (ii)\not\Rightarrow (i)\);
se \(X\) tem caráter enumerável, então \((ii)\Rightarrow (i)\).
listas:src-380[Avançado] listas:src-380 Seja \(X\) um conjunto infinito.
Mostre que a topologia cofinita é a menor topologia \(T_1\) sobre \(X\) — ou seja, mostre que, se \(\tau \) é a topologia cofinita sobre \(X\), então \((X,\tau )\) é um espaço \(T_1\) e, para toda topologia \(\tau '\) sobre \(X\) tal que \((X,\tau ')\) é um espaço \(T_1\), tem-se que \(\tau \subseteq \tau '\).
Mostre que não existe uma topologia sobre \(X\) que é a menor topologia \(T_2\) sobre \(X\). [Sugestão: Fixe \(x_1,x_2\in X\) distintos e sejam \(\tau _1\) e \(\tau _2\), respectivamente, as topologias sobre \(X\) que têm
\[ \mathcal{B}_1=\{ \{ x\} :x\in X\setminus \{ x_1\} \} \cup \{ X\setminus F:F\subseteq X\textrm{ é finito}\} \]e\[ \mathcal{B}_2=\{ \{ x\} :x\in X\setminus \{ x_2\} \} \cup \{ X\setminus F:F\subseteq X\textrm{ é finito}\} \]como bases de abertos. Mostre que \((X,\tau _1)\) e \((X,\tau _2)\) são espaços \(T_2\), mas o espaço \((X,\tau _1\cap \tau _2)\) não é \(T_2\).]