Capítulo 2

Cadeias de Markov finitas

Nas cadeias de Markov, o futuro depende do presente, não do caminho percorrido até ele.

Um jogo termina ao atingir uma barreira; uma rede de memória procura corrigir uma entrada; um usuário pode voltar a um serviço ou abandoná-lo. A descrição de cada sistema começa pela escolha do estado, que deve conservar a informação necessária para prever o próximo passo.

Os modelos finitos permitem construir matrizes de transição, classificar estados e estudar retornos e saídas por meio de contas explícitas. O equilíbrio e a convergência serão tratados no capítulo seguinte. Os modelos ocultos de Markov encerram o percurso como aplicação complementar; PageRank e colônias de formigas acompanham o estudo do comportamento limite.

Uma rede que recupera uma lembrança

Reconhecemos uma letra mesmo quando alguns traços estão apagados. Uma memória associativa recebe uma configuração incompleta ou corrompida e a modifica para aproximá-la de um padrão armazenado. Um modelo mínimo desse mecanismo introduz a escolha do estado e sua evolução aleatória.

Representamos cada neurônio por uma unidade que pode estar inativa ou ativa. A configuração de uma rede com \(N\) unidades neuronais no instante \(n\) é o vetor

\[ s(n)=(s_1(n),\ldots ,s_N(n)),\qquad s_i(n)\in \{ -1,+1\} . \]

Essa variável binária também é chamada de spin, por analogia com modelos da física. O peso \(w_{ij}\) mede a influência de \(j\) sobre \(i\); nesta primeira versão, \(w_{ij}=w_{ji}\) e \(w_{ii}=0\). O campo local na unidade \(i\) é

\[ h_i(s(n))=\sum _{j\ne i}w_{ij}s_j(n). \]
Ilustração: Uma rede que recupera uma lembrança
Figura 2.1 Uma configuração possível de uma rede com cinco unidades. Os números nas arestas são os pesos não nulos das interações; cada peso vale nos dois sentidos, pois \(w_{ij}=w_{ji}\). Os rótulos junto aos vértices mostram os spins da configuração \(s=(+1,-1,+1,+1,-1)\).

Em cada passo, escolhemos aleatoriamente uma das \(N\) unidades, todas com probabilidade \(1/N\), independentemente das escolhas anteriores. Apenas a unidade escolhida é atualizada: essa é uma dinâmica assíncrona. Se ela é a unidade \(i\), tomamos \(s_i(n+1)=+1\) quando \(h_i(s(n))\gt 0\) e \(s_i(n+1)=-1\) quando \(h_i(s(n))\lt 0\); se \(h_i(s(n))=0\), conservamos o valor anterior, \(s_i(n+1)=s_i(n)\). Para \(j\ne i\), fazemos \(s_j(n+1)=s_j(n)\).

A escolha aleatória da unidade a atualizar determina, a partir da configuração atual, a distribuição da configuração seguinte.

Aprendizado e recuperação são tarefas distintas. No aprendizado, escolhemos os pesos a partir dos padrões que desejamos guardar. Na recuperação, fixamos esses pesos e deixamos a configuração evoluir a partir da entrada recebida. A rede não precisa consultar uma lista de padrões a cada atualização: a informação foi incorporada às interações.

Para guardar o padrão \(\xi =(+1,+1,+1)\) em três unidades, tomemos \(w_{ij}=1/3\) para \(i\ne j\). Se a entrada é \(s(0)=(-1,+1,+1)\), então

\[ h_1(s(0))=\tfrac 13(+1)+\tfrac 13(+1)=\tfrac 23\gt 0. \]

A atualização da primeira unidade corrige o spin errado. Podemos acompanhar essa correção por uma energia,

\[ E(s)=-\sum _{i\lt j}w_{ij}s_is_j. \]

As energias antes e depois da correção são

\[ E(s(0))=E(-1,+1,+1)=\tfrac 13, \qquad E(s(1))=E(+1,+1,+1)=-1. \]

A mudança é \(-4/3\). Mais geralmente, ao alterar apenas a unidade \(i\), a simetria dos pesos dá

\[ E(s(n+1))-E(s(n))=-(s_i(n+1)-s_i(n))h_i(s(n))\leq 0. \]

A energia não aumenta com a atualização. Isso não garante que toda entrada chegue ao padrão desejado: podem existir outros estados estáveis, e o armazenamento de muitos padrões pode gerar interferência entre eles.

Ilustração: Uma rede que recupera uma lembrança

Figura 2.2 Atualização da primeira unidade na rede de três spins. A configuração passa de \(s(0)=(-1,+1,+1)\) para \(s(1)=(+1,+1,+1)\), e a energia diminui de \(1/3\) para \(-1\). Na escolha uniforme da unidade, essa correção tem probabilidade \(1/3\) no próximo passo.

Conhecida a configuração \(s(n)\), a escolha aleatória da unidade determina a lei de \(s(n+1)\) sem depender das configurações anteriores. O processo \((s(n))_{n\geq 0}\) é, portanto, uma cadeia de Markov no espaço \(\{ -1,+1\} ^N\).

O estudo da rede envolve a identificação de configurações estáveis, os tempos de chegada a essas configurações e a influência da aleatoriedade. O capítulo de MCMC retomará a rede de Hopfield com a definição completa, a demonstração de descida da energia, um exemplo com duas letras e a passagem para atualizações de Gibbs.

2.1 Definições e exemplos

As definições e vários resultados também valem para espaços enumeráveis, mas neste capítulo privilegiaremos os modelos finitos. O Capítulo 4 estudará os fenômenos próprios dos espaços infinitos. A seção opcional sobre colônias de formigas, no Capítulo 3, apresenta uma dinâmica com estado contínuo.

A distribuição inicial e as probabilidades de transição determinam a lei da trajetória. O estado \(X_n\) deve reunir a informação do passado relevante para prever o passo seguinte. Quando essa informação é insuficiente, pode ser necessário ampliar o estado.

Definição 2.1
Cadeia de Markov Considere um processo estocástico em tempo discreto \((X_n)_{n\geq 0}\) com valores no espaço de estados \(S\). Dizemos que \((X_n)\) é uma cadeia de Markov se, para todo \(n\geq 0\) e quaisquer estados \(i_0,\ldots ,i_n,j\) tais que o evento \(\{ X_0=i_0,\ldots ,X_n=i_n\} \) tenha probabilidade positiva,

\begin{equation} \begin{aligned} & \mathbb {P}(X_{n+1}=j\mid X_n=i_n,X_{n-1}=i_{n-1},\ldots ,X_0=i_0)\\ & \qquad =\mathbb {P}(X_{n+1}=j\mid X_n=i_n). \end{aligned} \label{eq:propriedade-markov} \tag{2.1} \end{equation}

Assim, uma vez conhecido o estado atual, o histórico não fornece informação adicional sobre o próximo estado.

Definição 2.2

Cadeia homogênea e matriz de transição A cadeia é homogênea no tempo quando

\[ p(i,j)=\mathbb {P}(X_{n+1}=j\mid X_n=i) \]

não depende de \(n\). A matriz \(P=(p(i,j))_{i,j\in S}\) é sua matriz de transição. Suas entradas são não negativas e cada linha soma \(1\).

Na entrada \(p(i,j)\), a linha \(i\) representa o estado atual e a coluna \(j\) representa o próximo estado. Portanto,

\[ \sum _{j\in S}p(i,j)=1 \]

para cada \(i\): partindo de \(i\), a cadeia precisa estar em algum estado no passo seguinte.

A matriz descreve uma transição. Para calcular a probabilidade de uma trajetória inteira, basta aplicar repetidamente a regra do produto para probabilidades condicionais.

Proposição 2.1
Probabilidade de um caminho Se \((X_n)\) é uma cadeia de Markov homogênea com distribuição inicial \(\mu \) e matriz de transição \(P\), então, para \(i_0,\ldots ,i_n\in S\),
\[ \mathbb P(X_0=i_0,\ldots ,X_n=i_n) =\mu (i_0)\prod _{k=1}^{n}p(i_{k-1},i_k). \]
Para \(n=0\), o produto vazio vale \(1\).

Demonstração ▼

Para \(n=0\), a igualdade é a definição de \(\mu \). Suponha que ela valha até o instante \(n\). Quando a história \(X_0=i_0,\ldots ,X_n=i_n\) tem probabilidade positiva, a regra do produto e a propriedade de Markov dão

\[ \begin{aligned} & \mathbb P(X_0=i_0,\ldots ,X_{n+1}=i_{n+1})\\ & \quad =\mathbb P(X_0=i_0,\ldots ,X_n=i_n)\, p(i_n,i_{n+1}). \end{aligned} \]

Se a história tem probabilidade zero, a trajetória mais longa também tem probabilidade zero, e o produto no enunciado já é nulo. Isso conclui a indução.

O mesmo cálculo explica por que podemos condicionar em informações parciais do passado, sem precisar conhecer todos os estados visitados.

Corolário 2.2
Markov para eventos do passado Fixe \(n\geq 0\) e um evento \(A\) determinado pelos estados \(X_0,\ldots ,X_{n-1}\). Se \(\mathbb P(A,X_n=i)\gt 0\), então, para \(j_1,\ldots ,j_m\in S\) e \(m\geq 1\),
\[ \begin{aligned} & \mathbb P(X_{n+1}=j_1,\ldots ,X_{n+m}=j_m \mid A,X_n=i)\\ & \qquad =p(i,j_1)p(j_1,j_2)\cdots p(j_{m-1},j_m). \end{aligned} \]
Para \(n=0\), entendemos \(A\) como o evento certo.

Demonstração ▼

Primeiro considere uma história completa \(X_0=i_0,\ldots ,X_n=i\). A regra do produto aplicada à história e à sua continuação mostra que a probabilidade condicional dos próximos \(m\) estados é o produto anunciado; os fatores anteriores ao instante \(n\) se cancelam.

Como \(S\) é finito, o evento \(A\cap \{ X_n=i\} \) é união disjunta de histórias completas até \(n\). Em cada história de probabilidade positiva, a probabilidade condicional da continuação é a mesma. Somando sobre essas histórias, obtemos a igualdade para \(A\), sem depender dos estados anteriores a \(n\).

Proposição 2.3
Homogeneidade em vários passos Se \((X_n)_{n\geq 0}\) é uma cadeia de Markov homogênea, então, para todo \(m\geq 1\) e quaisquer estados \(i,j\),
\[ \mathbb {P}(X_{n+m}=j\mid X_n=i) \]
não depende de \(n\), sempre que o condicionamento estiver definido.

Demonstração ▼

A prova é por indução em \(m\). Para \(m=1\), a afirmação é exatamente a definição de homogeneidade.

Suponha agora que, para algum \(m\geq 1\), as probabilidades

\[ p^{(m)}(i,k)=\mathbb {P}(X_{n+m}=k\mid X_n=i) \]

não dependam de \(n\). Condicionando no estado intermediário \(X_{n+m}\) e usando o Corolário 2.2 para o passado \(X_n=i\),

\[ \begin{aligned} \mathbb {P}(X_{n+m+1}=j\mid X_n=i) & =\sum _{k\in S} p(k,j)\, \mathbb {P}(X_{n+m}=k\mid X_n=i)\\ & =\sum _{k\in S} p(k,j)\, p^{(m)}(i,k). \end{aligned} \]

Pela hipótese de indução, o lado direito não depende de \(n\). Isso conclui a indução.

A homogeneidade em um passo estende-se, portanto, a qualquer número fixo de passos.

Exemplo 2.1 (Um sapo em quatro folhas)

Um sapo ocupa uma de quatro folhas, que chamaremos de \(A\), \(B\), \(C\) e \(D\). Nem toda folha está ao alcance de qualquer outra: as ligações possíveis são as indicadas no grafo abaixo. A cada passo, o sapo escolhe uniformemente uma das folhas ligadas à folha em que se encontra. Se \(X_n\) indica a folha ocupada depois do \(n\)-ésimo salto, então \((X_n)\) é uma cadeia de Markov: conhecida a folha atual, o próximo salto não depende do caminho percorrido antes.

Ilustração: Definições e exemplos
Figura 2.3 O sapo escolhe uniformemente uma folha vizinha. Assim, \(A\) e \(B\) têm duas opções, \(C\) tem três e, partindo de \(D\), o salto para \(C\) é obrigatório.

Na ordem \((A,B,C,D)\), as probabilidades são obtidas contando os vizinhos de cada folha. A matriz de transição é

\[ P=\begin{pmatrix} 0 & 1/2 & 1/2 & 0 \\ 1/2 & 0 & 1/2 & 0 \\ 1/3 & 1/3 & 0 & 1/3 \\ 0 & 0 & 1 & 0 \end{pmatrix}. \]

Daqui em diante, salvo indicação contrária, consideraremos cadeias homogêneas no tempo. Nas fórmulas de probabilidades condicionais, entenderemos sempre que o evento condicionado tem probabilidade positiva. A matriz de transição especifica a dinâmica a partir de cada estado, inclusive daqueles que têm probabilidade inicial zero.

Exemplo 2.2 (Ruína do jogador)

Considere um jogo com rodadas independentes. Em cada rodada, o jogador ganha uma unidade monetária com probabilidade \(p=0{,}4\) ou perde uma unidade com probabilidade \(1-p=0{,}6\). O jogo termina quando sua fortuna atinge \(0\) ou \(N\) unidades monetárias.

Se \(X_n\) é a fortuna depois de \(n\) rodadas, então, para \(0\lt i\lt N\) e qualquer histórico compatível,

\[ \mathbb {P}\left(X_{n+1}=i+1 \mid X_n=i, X_{n-1}=i_{n-1}, \ldots ,X_0=i_0\right)=0{,}4. \]

O lado direito depende apenas da fortuna presente, de modo que a propriedade de Markov vale. As transições são

\[ \begin{aligned} & p(i,i+1)=0{,}4, \quad p(i,i-1)=0{,}6, \quad \text{se }0\lt i\lt N, \\ & p(0,0)=1, \qquad p(N,N)=1. \end{aligned} \]

Para \(N=5\), o grafo de transição torna visíveis as duas possibilidades em cada estado interior e as duas barreiras absorventes:

Ilustração: Definições e exemplos
Figura 2.4 Grafo da ruína do jogador com barreiras \(0\) e \(5\). As barreiras são absorventes; nos estados interiores, a fortuna sobe uma unidade com probabilidade \(0{,}4\) e desce uma unidade com probabilidade \(0{,}6\).

A matriz correspondente é

012345
01{,}000000
10{,}600{,}4000
200{,}600{,}400
3000{,}600{,}40
40000{,}600{,}4
5000001{,}0

Os estados 0 e \(N\) são absorventes: quando a fortuna atinge uma das barreiras, o jogo termina.

Para distinguir um caminho particular de uma probabilidade de transição, considere a trajetória

\[ 2\longrightarrow 3\longrightarrow 2\longrightarrow 1\longrightarrow 0. \]

Ela tem probabilidade \(0{,}4(0{,}6)^3=0{,}0864\). A figura mostra essa realização; outras sequências também podem levar à ruína.

Figura não resolvida: figuras/ruina-trajetoria.tikz
Figura 2.5 Uma realização da ruína do jogador com \(N=5\), começando com fortuna \(2\) e sendo absorvida em \(0\) no quarto passo.

Exemplo 2.3 (Cadeia de Ehrenfest)

Esta cadeia surgiu na física como um modelo simplificado da troca de partículas entre dois recipientes. Na versão matemática, distribuímos \(N\geq 1\) bolas entre duas urnas. A cada passo, escolhemos uma das \(N\) bolas ao acaso e a transferimos para a outra urna.

Ilustração: Definições e exemplos

Figura 2.6 Na cadeia de Ehrenfest, escolhemos uma das \(N\) bolas e a transferimos para a outra urna. Se há \(i\) bolas à esquerda, o número de bolas nessa urna diminui com probabilidade \(i/N\) e aumenta com probabilidade \((N-i)/N\).

Seja \(X_n\) o número de bolas na urna esquerda depois do \(n\)-ésimo passo. Conhecer \(X_n=i\) basta para determinar as probabilidades do passo seguinte: há \(N-i\) bolas na urna direita e \(i\) na esquerda. Assim, para \(0\leq i\lt N\),

\[ \mathbb {P}\left(X_{n+1}=i+1 \mid X_{n}=i, X_{n-1}=i_{n-1}, \ldots ,X_{0}=i_{0}\right) =\frac{N-i}{N}, \]

pois \(X_n\) aumenta quando a bola escolhida está na urna direita. Do mesmo modo, \(X_n\) diminui em uma unidade com probabilidade \(i/N\). Logo,

\[ p(i,i+1)=\frac{N-i}{N}\quad (0\leq i\lt N), \qquad p(i,i-1)=\frac{i}{N}\quad (0\lt i\leq N), \]

e \(p(i,j)=0\) nos demais casos. Quando \(N=4\), por exemplo, a matriz é

01234
001000
11/403/400
202/402/40
3003/401/4
400010

Nos exemplos da ruína do jogador e de Ehrenfest, partimos de uma descrição verbal e extraímos as probabilidades de transição. Reciprocamente, qualquer família \(p(i,j)\) que satisfaça

  • \(p(i,j)\geq 0\) para todos os estados \(i,j\);

  • \(\sum _jp(i,j)=1\) para cada estado \(i\),

define uma matriz de transição. Para construir a cadeia, estando em \(i\), sorteamos o próximo estado \(j\) segundo a distribuição dada pela linha \(i\) da matriz.

Outra maneira de descrever uma cadeia é por uma recorrência aleatória:

\[ X_{n+1}=f(X_n,Z_{n+1}), \]

em que \(Z_1,Z_2,\ldots \) são novas entradas aleatórias, independentes e com a mesma distribuição, também independentes de \(X_0\). O próximo sorteio independe do passado; portanto, a lei de \(X_{n+1}\) depende apenas de \(X_n\), e a cadeia é homogênea.

Exemplo 2.4 (Uma oficina de reparos)

Seja \(X_n\) o número de máquinas aguardando reparo no início do dia \(n\). A oficina conserta uma máquina por dia, quando há alguma esperando. Ao final do dia, chegam \(Z_{n+1}\) novas máquinas com defeito. A regra é

\[ \boxed {X_{n+1}=(X_n-1)^++Z_{n+1}}, \qquad x^+=\max \{ x,0\} . \]

Suponha que as chegadas de dias diferentes sejam independentes, com

\[ \mathbb P(Z_n=0)=\frac12,\qquad \mathbb P(Z_n=1)=\frac14,\qquad \mathbb P(Z_n=2)=\frac14. \]

Se \(X_n=2\), a oficina conserta uma máquina e resta uma antes das novas chegadas. Logo,

\[ p(2,1)=\frac12,\qquad p(2,2)=\frac14,\qquad p(2,3)=\frac14. \]

Já se \(X_n=0\) ou \(X_n=1\), não sobra nenhuma máquina depois do reparo, e \(X_{n+1}=Z_{n+1}\). Assim, as linhas de transição correspondentes a \(0\) e \(1\) são iguais.

A recorrência determina o próximo estado a partir do número atual de máquinas e das novas chegadas, sem exigir a escrita de uma matriz infinita.

Exemplo 2.5 (Três gerações de uma família: mobilidade social)
Uma família é acompanhada ao longo das gerações. Em cada geração, registramos sua posição em uma de três classes, representadas por \(1=\) inferior, \(2=\) intermediária e \(3=\) superior. Como modelo didático, suponha que a classe na geração seguinte dependa somente da classe atual, com a matriz de transição
\[ P=\begin{array}{c|ccc}& 1& 2& 3\\ \hline 1& 0{,}7& 0{,}2& 0{,}1\\ 2& 0{,}3& 0{,}5& 0{,}2\\ 3& 0{,}2& 0{,}4& 0{,}4 \end{array}. \]
Figura não resolvida: figuras/mobilidade-social.tikz
Figura 2.7 Três classes sociais e as probabilidades de transição entre gerações. Os laços representam a possibilidade de permanecer na mesma classe.
Se a família está na classe intermediária, na próxima geração ela permanece nessa classe com probabilidade \(0{,}5\), desce com probabilidade \(0{,}3\) e sobe com probabilidade \(0{,}2\). Esses números são ilustrativos, não estimativas obtidas de uma população real. Na próxima seção usaremos a mesma matriz para investigar duas gerações; no Capítulo 3, estudaremos o comportamento de longo prazo.

Exemplo 2.6 (A vida de um computador)
Um computador de escritório pode estar funcionando (\(F\)), em reparo (\(R\)) ou definitivamente descartado (\(D\)). Ao final de um dia de funcionamento, permanece funcionando no dia seguinte com probabilidade \(0{,}995\) e entra em reparo com probabilidade \(0{,}005\). Se está em reparo, volta a funcionar com probabilidade \(0{,}90\), continua em reparo com probabilidade \(0{,}05\) e é descartado com probabilidade \(0{,}05\). Depois do descarte, não retorna ao serviço.
\[ P=\begin{array}{c|ccc}& F& R& D\\ \hline F& 0{,}995& 0{,}005& 0\\ R& 0{,}90& 0{,}05& 0{,}05\\ D& 0& 0& 1 \end{array}. \]
Figura não resolvida: figuras/computador-manutencao.tikz
Figura 2.8 Funcionamento e reparo podem alternar; o descarte é um estado absorvente.
A condição atual determina a lei do dia seguinte. Mais adiante veremos como calcular o número esperado de dias em cada condição antes do descarte.

Exemplo 2.7 (Um canal de comunicação com ruído)

Um dígito binário atravessa sucessivas etapas de transmissão. Em cada etapa, um \(0\) é trocado por \(1\) com probabilidade \(a\), enquanto um \(1\) é trocado por \(0\) com probabilidade \(b\), independentemente do que ocorreu antes. Se \(X_n\in \{ 0,1\} \) é o dígito que entra na etapa \(n\), então \((X_n)\) é uma cadeia de Markov com matriz

\[ P=\begin{pmatrix} 1-a & a \\ b & 1-b \end{pmatrix}. \]

Interessa calcular \(\mathbb {P}(X_n=X_0)\) e examinar se a informação sobre o bit original desaparece quando \(n\) cresce. O canal simétrico corresponde ao caso \(a=b=1-p\), em que cada etapa preserva o dígito com probabilidade \(p\).

Exemplo 2.8 (Quando uma soma perde informação)

Sejam \(Y_0,Y_1,\ldots \) Bernoulli independentes, com parâmetro \(1/2\), e ponha \(Z_n=Y_{n-1}+Y_n\) para \(n\geq 1\). Conhecer \(Z_2=1\) deixa duas possibilidades equiprováveis para \((Y_1,Y_2)\), de modo que

\[ \mathbb {P}(Z_3=0\mid Z_2=1)=1/4. \]

Mas, se sabemos também que \(Z_1=0\), então \(Y_1=0\) e \(Y_2=1\); portanto

\[ \mathbb {P}(Z_3=0\mid Z_2=1,Z_1=0)=0. \]

Os eventos condicionados têm probabilidade positiva. Assim, \((Z_n)\) não é uma cadeia de Markov: a soma esconde informação que o passado ajuda a reconstruir. O processo dos pares \((Y_{n-1},Y_n)\) tem a propriedade de Markov, pois o próximo par é \((Y_n,Y_{n+1})\) e a nova variável \(Y_{n+1}\) é independente das anteriores.

Escrevendo \(W_n=(Y_{n-1},Y_n)\), enumeramos os estados na ordem \(00,01,10,11\). Como \(W_{n+1}=(Y_n,Y_{n+1})\), apenas o segundo algarismo do estado atual e o novo sorteio importam. A matriz de transição é

\[ P_W=\begin{array}{c|cccc}& 00& 01& 10& 11\\ \hline 00& 1/2& 1/2& 0& 0\\ 01& 0& 0& 1/2& 1/2\\ 10& 1/2& 1/2& 0& 0\\ 11& 0& 0& 1/2& 1/2 \end{array}. \]

Por exemplo, para passar de \(00\) a \(11\) em dois passos, o único caminho possível é \(00\to 01\to 11\); logo,

\[ P_W^2(00,11)=\frac12\cdot \frac12=\frac14. \]

A soma \(Z_n\) pode ser recuperada de \(W_n\), mas não o contrário: \(Z_n=1\) não distingue \(01\) de \(10\), que levam a distribuições diferentes para o próximo valor da soma. A distinção entre esses estados conserva a informação necessária ao próximo passo.

2.2 Probabilidades de transição em vários passos

A matriz \(P\) descreve um passo. Para descrever \(m\) passos, precisamos somar sobre todos os estados intermediários possíveis. A multiplicação de matrizes faz exatamente essa contabilidade.

Notação

Distribuição inicial e lei da cadeia A matriz de transição descreve como a cadeia se move, mas ainda é preciso dizer onde ela começa. A distribuição inicial é a distribuição \(\mu \) de \(X_0\):

\[ \mu (x)=\mathbb {P}(X_0=x),\qquad x\in S. \]

Escrevemos \(\mathbb {P}_\mu \) para a lei da trajetória quando \(X_0\) tem distribuição \(\mu \) e \(E_\mu \) para a esperança correspondente.

Quando o estado inicial é fixo, usamos uma notação mais curta: \(\mathbb {P}_x\) é a lei da cadeia que começa em \(x\), isto é, \(\mathbb {P}_x(X_0=x)=1\), e \(E_x\) é a esperança sob essa lei. Assim, para qualquer evento \(A\) determinado pela trajetória,

\[ \mathbb {P}_\mu (A) =\sum _{x\in S}\mathbb {P}_\mu (A\mid X_0=x)\, \mathbb {P}_\mu (X_0=x) =\sum _{x\in S}\mu (x)\mathbb {P}_x(A). \]

A fórmula apenas separa os casos possíveis para o estado inicial. Quando \(\mu (x)\gt 0\), \(\mathbb {P}_x\) também pode ser visto como a lei condicional \(\mathbb {P}_\mu (\, \cdot \mid X_0=x)\).

Definição 2.3
Probabilidades de transição em \(m\) passos Para \(m\geq 0\), a probabilidade de transição de \(i\) para \(j\) em \(m\) passos é \(\mathbb {P}_i(X_m=j)\). Denotaremos por \(P^m\) a matriz dessas probabilidades, com \(P^0=I\). O próximo teorema mostrará que ela coincide com a potência matricial usual.

Pela Proposição 2.3 e pela propriedade de Markov,

\[ \mathbb {P}(X_{n+m}=j\mid X_n=i)=\mathbb {P}_i(X_m=j), \]

sempre que o condicionamento estiver definido.

Exemplo 2.9 (O sapo em dois e três passos)

Voltemos ao sapo do Exemplo 2.1. Se ele começa em \(A\), para estar novamente em \(A\) depois de dois saltos há exatamente duas possibilidades:

\[ A\to B\to A \qquad \text{ou}\qquad A\to C\to A. \]

As probabilidades desses caminhos são, respectivamente,

\[ \frac12\frac12=\frac14 \qquad \text{e}\qquad \frac12\frac13=\frac16. \]

Portanto,

\[ P^2(A,A)=\frac14+\frac16=\frac5{12}. \]

Para o sapo partir de \(A\) e chegar a \(B\) depois de três saltos, há três caminhos possíveis:

\[ A\to B\to A\to B, \qquad A\to B\to C\to B, \qquad A\to C\to A\to B. \]

Desta vez os caminhos não têm todos a mesma probabilidade:

\[ \frac12\frac12\frac12=\frac18,\qquad \frac12\frac12\frac13=\frac1{12},\qquad \frac12\frac13\frac12=\frac1{12}. \]

Logo,

\[ P^3(A,B) =\frac18+\frac1{12}+\frac1{12} =\frac7{24}. \]
A equação de Chapman–Kolmogorov reúne essas contribuições: fixado um instante intermediário, os caminhos são separados segundo o estado ocupado nesse instante.

Teorema 2.4

Equação de Chapman–Kolmogorov Para \(m,n\geq 0\),

\begin{equation} P^{m+n}(i,j) =\sum _{k\in S}P^{m}(i,k)P^{n}(k,j). \label{eq:chapman-kolmogorov-discreta} \tag{2.2} \end{equation}

Em notação matricial, \(P^{m+n}=P^mP^n\). Em particular, as probabilidades em \(m\) passos são as entradas da potência usual \(P^m\).

Demonstração ▼

Condicionamos pelo estado ocupado após os primeiros \(m\) passos. Os eventos \(\{ X_m=k\} \), para \(k\in S\), são disjuntos e cobrem todas as possibilidades, de modo que

\[ \begin{aligned} \mathbb {P}_i(X_{m+n}=j) & =\sum _{k\in S}\mathbb {P}_i(X_m=k,\, X_{m+n}=j)\\ & =\sum _{\substack {k\in S:\\ { P_i(X_m=k)\gt 0 }}} \mathbb {P}_i(X_m=k)\, \mathbb {P}_i(X_{m+n}=j\mid X_m=k). \end{aligned} \]

O primeiro fator é, por definição, \(P^m(i,k)\). Para o segundo, o Corolário 2.2 permite esquecer os estados anteriores a \(m\) depois que conhecemos \(X_m=k\); pela homogeneidade, podemos ainda deslocar a origem do tempo. Portanto,

\[ \mathbb {P}_i(X_{m+n}=j\mid X_m=k) =\mathbb {P}_k(X_n=j)=P^n(k,j). \]

Substituindo esses dois fatores obtemos

\[ P^{m+n}(i,j)=\sum _k P^m(i,k)P^n(k,j). \]

Se \(\mathbb {P}_i(X_m=k)=0\), o termo correspondente já é zero, por isso esses estados podem ser incluídos sem restrição na soma final.

Ilustração: Probabilidades de transição em vários passos

Figura 2.9 Para chegar de \(i\) a \(j\) em \(m+n\) passos, somamos sobre o estado ocupado no instante \(m\). Os eventos correspondentes aos diferentes valores de \(X_m\) são disjuntos. As setas representam percursos de \(m\) e \(n\) passos, respectivamente.

Exemplo 2.10 (Ehrenfest: duas trocas de urna)
Voltemos à urna de Ehrenfest do Exemplo 2.3, agora com \(N=4\) bolas. Suponha que todas estejam inicialmente na urna da direita, isto é, \(X_0=0\). No primeiro passo uma bola vai obrigatoriamente para a esquerda, e \(X_1=1\). No segundo, a bola escolhida pode ser a única que está à esquerda, com probabilidade \(1/4\), ou uma das outras três, com probabilidade \(3/4\). Logo,
\[ \boxed {P^2(0,0)=\frac14,\qquad P^2(0,2)=\frac34.} \]
Nenhum outro estado é possível no segundo passo. A mesma urna será retomada no estudo do equilíbrio e da periodicidade.

Exemplo 2.11 (Dois passos no canal binário)
Para o canal do Exemplo 2.7,
\[ P=\begin{pmatrix} 1-a & a \\ b & 1-b \end{pmatrix}, \]
e portanto
\[ P^2= \begin{pmatrix} (1-a)^2+ab & a(2-a-b) \\ b(2-a-b) & (1-b)^2+ab \end{pmatrix}. \]
Por exemplo, para começar em 0 e terminar em 1 depois de duas transmissões, há dois caminhos: \(0\to 0\to 1\) e \(0\to 1\to 1\). Suas probabilidades somam
\[ (1-a)a+a(1-b)=a(2-a-b), \]
que é a entrada \((0,1)\) de \(P^2\).

Exemplo 2.12 (Mobilidade social: o caminho e o destino)
Retomemos a matriz da mobilidade social do Exemplo 2.5. Uma família começa na classe intermediária. A probabilidade de ela subir para a classe superior na geração seguinte e descer à inferior na outra é a probabilidade do caminho específico \(2\to 3\to 1\):
\[ \mathbb P_2(X_1=3,X_2=1) =p(2,3)p(3,1)=0{,}2\cdot 0{,}2=0{,}04. \]
Para calcular a probabilidade de estar na classe inferior depois de duas gerações, somamos sobre todos os caminhos:
\[ \begin{aligned} P^2(2,1) & =p(2,1)p(1,1)+p(2,2)p(2,1)+p(2,3)p(3,1)\\ & =0{,}3\cdot 0{,}7+0{,}5\cdot 0{,}3+0{,}2\cdot 0{,}2\\ & =\boxed {0{,}40}. \end{aligned} \]
A distribuição completa depois de duas gerações é
\[ P^2(2,\cdot )=(0{,}40,\ 0{,}39,\ 0{,}21). \]
A probabilidade do destino reúne as contribuições de todos os itinerários que chegam a ele.

Exemplo 2.13 (A loja: estoque depois de dois dias)

Uma loja acompanha seu estoque no fim do dia, entre \(0\) e \(3\) unidades. Se terminou o dia com \(0\) ou \(1\), repõe o estoque até \(3\) antes de vender novamente; se terminou com \(2\) ou \(3\), não encomenda nada. A demanda diária, independente de um dia para outro, é \(0\), \(1\) ou \(2\) unidades, com probabilidades \(1/4\), \(1/2\) e \(1/4\), respectivamente.

Começando com \(X_0=2\), qual é a chance de o estoque ser exatamente zero no fim do segundo dia? Para terminar com zero, a loja precisa começar esse segundo dia com \(2\) unidades e vender as duas. Se a primeira demanda foi \(1\) ou \(2\), haverá reposição a \(3\) e não será possível terminar em zero, pois a demanda máxima é \(2\). Assim, há somente o caminho \(2\to 2\to 0\), que exige demanda zero no primeiro dia e demanda dois no segundo:

\[ \boxed {P^2(2,0)=\frac14\cdot \frac14=\frac1{16}.} \]

Mais adiante, no Exemplo 3.5, estudaremos a mesma política para calcular o estoque e o lucro médios no longo prazo.

Exemplo 2.14 (Duas salas e uma saída: calculando \(P^n\))

Uma pessoa circula por duas salas, representadas pelos estados \(1\) e \(2\). A cada passo, ela permanece na mesma sala com probabilidade \(1/2\), passa para a outra com probabilidade \(1/4\) ou sai do edifício com probabilidade \(1/4\). A saída é definitiva e corresponde ao estado absorvente \(3\). A matriz de transição é

\[ P=\begin{pmatrix} \frac12 & \frac14 & \frac14 \\ \frac14 & \frac12 & \frac14 \\ 0 & 0 & 1 \end{pmatrix}. \]
Figura não resolvida: figuras/duas-salas-saida.tikz
Figura 2.10 As duas salas permitem permanências e mudanças de sala; de qualquer uma delas é possível chegar à saída, que é absorvente.

Por Chapman–Kolmogorov, para estar na sala \(2\) após dois passos, começando na sala \(1\), a pessoa pode permanecer primeiro na sala \(1\) ou passar imediatamente à sala \(2\). Assim,

\[ P^2(1,2) =\frac12\cdot \frac14+\frac14\cdot \frac12 =\frac14. \]

A diagonalização permite calcular \(P^n\) para um número qualquer de passos. Os vetores

\[ v_1=\begin{pmatrix} 1 \\ 1 \\ 0 \end{pmatrix},\qquad v_2=\begin{pmatrix} 1 \\ -1 \\ 0 \end{pmatrix},\qquad v_3=\begin{pmatrix} 1 \\ 1 \\ 1 \end{pmatrix} \]

são autovetores de \(P\), com autovalores \(3/4\), \(1/4\) e \(1\), respectivamente. Tomando-os como colunas, obtemos

\[ S=\begin{pmatrix} 1 & 1 & 1 \\ 1 & -1 & 1 \\ 0 & 0 & 1 \end{pmatrix}, \qquad S^{-1}=\begin{pmatrix} \frac12 & \frac12 & -1 \\ \frac12 & -\frac12 & 0 \\ 0 & 0 & 1 \end{pmatrix}. \]

Portanto, \(P=S\, \operatorname {diag}(3/4,1/4,1)\, S^{-1}\) e

\[ P^n =S\, \operatorname {diag}\bigl((3/4)^n,(1/4)^n,1\bigr)\, S^{-1} =\begin{pmatrix} \frac{a_n+b_n}{2} & \frac{a_n-b_n}{2} & 1-a_n \\[1mm] \frac{a_n-b_n}{2} & \frac{a_n+b_n}{2} & 1-a_n \\[1mm] 0 & 0 & 1 \end{pmatrix}, \]

onde \(a_n=(3/4)^n\) e \(b_n=(1/4)^n\).

Em cada passo anterior à saída, a chance de continuar no edifício é \(3/4\). Logo,

\[ \mathbb P_1(X_n=3)=1-\left(\frac34\right)^n: \]

esta é a probabilidade de já ter saído até o instante \(n\). Além disso,

\[ P^n(1,1)-P^n(1,2)=\left(\frac14\right)^n. \]

A diferença entre as probabilidades de ocupar as duas salas diminui rapidamente: a cadeia perde a preferência pela sala em que começou. Como \(a_n,b_n\to 0\), a probabilidade de estar no estado \(3\) tende a \(1\). Voltaremos a esta cadeia para contar quantas vezes a pessoa visita uma das salas antes de sair.

Se a distribuição inicial é o vetor-linha \(\mu _0\), então a distribuição de \(X_m\) é \(\mu _0P^m\). Essa identidade será o ponto de partida para o estudo do comportamento de longo prazo.

2.2.1 Estimação de transições e retenção de usuários

Em aplicações, a matriz de transição costuma ser estimada a partir de observações. Suponha que registremos, ao fim de cada semana, o número de dias em que cada usuário acessou um serviço. Fixamos antes da análise os estados \(A=\) ativo (quatro ou mais dias), \(P=\) pouco ativo (um a três dias), \(I=\) inativo (nenhum acesso) e \(B=\) abandono (conta encerrada). Aqui o encerramento é definitivo; inatividade, por si só, permite retorno.

Exemplo 2.15 (Das observações à previsão de abandono)

Considere a seguinte tabela didática de contagens, obtida a partir de pares de semanas consecutivas de vários usuários acompanhados no mesmo período:

\[ \begin{array}{c|rrrr|r} N_{ij}& A& P& I& B& \text{total}\\ \hline A& 70& 20& 10& 0& 100\\ P& 10& 25& 10& 5& 50\\ I& 2& 4& 8& 6& 20 \end{array}. \]

Os estados \(A\), \(P\), \(I\) e \(B\) representam, respectivamente, usuários ativos, pouco ativos, inativos e que abandonaram o serviço. A entrada \(N_{ij}\) conta quantas vezes foi observada uma transição do estado \(i\) para o estado \(j\):

\[ N_{ij} = \# \{ \text{transições observadas de }i\text{ para }j\} . \]

Um mesmo usuário pode contribuir com vários pares de semanas consecutivas. A última observação de um usuário não é ligada à primeira de outro, e uma semana sem observação não deve ser registrada como inatividade.

A tabela permite estimar diretamente as probabilidades de transição. Se

\[ N_i=\sum _k N_{ik} \]

é o número total de transições observadas a partir do estado \(i\), tomamos

\[ \widehat p_{ij} = \frac{N_{ij}}{N_i}. \]

Essa estimativa é a frequência das transições de \(i\) para \(j\) entre todas as transições iniciadas em \(i\).

Por exemplo, das \(100\) transições observadas a partir de \(A\), \(70\) terminaram novamente em \(A\), \(20\) em \(P\) e \(10\) em \(I\). Assim,

\[ \widehat p_{AA}=0{,}7, \qquad \widehat p_{AP}=0{,}2, \qquad \widehat p_{AI}=0{,}1. \]

Procedendo da mesma forma nas demais linhas, obtemos

\[ \widehat P= \begin{pmatrix} 0{,}7 & 0{,}2 & 0{,}1 & 0 \\ 0{,}2 & 0{,}5 & 0{,}2 & 0{,}1 \\ 0{,}1 & 0{,}2 & 0{,}4 & 0{,}3 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \end{pmatrix}. \]

As três primeiras linhas foram estimadas a partir das observações. A última é uma hipótese do modelo: depois do abandono não são coletadas novas transições, e consideramos \(B\) um estado absorvente.

Suponha agora que um usuário esteja ativo no instante inicial. Sua distribuição inicial é \((1,0,0,0)\) e, portanto,

\[ \begin{aligned} (1,0,0,0)\widehat P^2 & =(0{,}54,0{,}26,0{,}15,0{,}05),\\ (1,0,0,0)\widehat P^3 & =(0{,}445,0{,}268,0{,}166,0{,}121). \end{aligned} \]

A última coordenada da primeira expressão pode também ser obtida diretamente. Para que um usuário inicialmente ativo tenha abandonado o serviço em até dois passos, ele deve seguir um dos caminhos

\[ A\to P\to B \qquad \text{ou}\qquad A\to I\to B. \]

Logo,

\[ 0{,}2\cdot 0{,}1+0{,}1\cdot 0{,}3 = 0{,}05. \]

Como \(B\) é absorvente, a última coordenada de \((1,0,0,0)\widehat P^3\) representa a probabilidade estimada de abandono até o terceiro passo:

\[ 0{,}121. \]

O abandono de usuários ou clientes é frequentemente chamado de churn. A fração ou probabilidade de abandono em um período é a taxa de churn, usada em serviços por assinatura e plataformas digitais para acompanhar a permanência dos usuários. O modelo relaciona a atividade observada nas semanas anteriores à probabilidade de abandono nas semanas seguintes.

Há mais de uma maneira de definir retenção. Se consideramos retido todo usuário que ainda não atingiu \(B\), então a retenção até o terceiro passo é

\[ 1-0{,}121=0{,}879. \]

Se quisermos medir apenas a probabilidade de o usuário estar ativo ou pouco ativo exatamente no terceiro passo, obtemos

\[ 0{,}445+0{,}268=0{,}713. \]

As duas quantidades respondem a perguntas diferentes: a primeira mede a permanência no serviço, enquanto a segunda mede a presença de alguma atividade no período considerado.

Se uma linha não contém transições observadas, sua distribuição não é identificada pelos dados: não podemos dividir por zero nem concluir que o estado seja absorvente. Uma suavização simples, para \(d_i\) destinos admissíveis, substitui as proporções por

\[ \widetilde p_{ij}=\frac{N_{ij}+\eta }{N_i+d_i\eta },\qquad \eta \gt 0, \]

nesses destinos, conservando os zeros estruturais. Ela evita previsões nulas baseadas em poucas observações, mas acrescenta uma escolha ao modelo; já não é o estimador de máxima verossimilhança sem restrições adicionais.

A hipótese de Markov pode ser examinada comparando a atividade na semana seguinte entre usuários com o mesmo estado atual, mas estados anteriores distintos. Diferenças persistentes sugerem que o estado resume mal o histórico. Para examinar a homogeneidade, podem-se estimar matrizes em períodos separados e comparar suas previsões em semanas posteriores, inclusive a fração de contas encerradas. Uma campanha, uma mudança no produto ou diferenças entre coortes podem alterar as probabilidades de transição. Nesses casos, uma única matriz fixa deixa de representar bem a evolução dos usuários. Mesmo quando o ajuste é razoável, as probabilidades obtidas são previsões do modelo: não expressam a incerteza da estimação nem demonstram o efeito causal de uma intervenção voltada à retenção.

2.3 Classificação dos estados

Para compreender as trajetórias, surgem duas perguntas diferentes: quando a cadeia visita \(y\) pela primeira vez e quando volta a \(y\) depois do instante inicial. Se começamos em \(y\), a entrada já ocorreu, mas o retorno ainda está por acontecer.

Definição 2.4
Tempos de entrada e de retorno Para um estado \(y\), definimos o tempo de entrada por
\[ H_y=\min \{ n\geq 0:X_n=y\} . \]
Esse tempo admite o instante inicial. Na literatura, \(H_y\) também aparece como tempo de atingimento (hitting time) e, em algumas convenções, como tempo de primeira passagem. Usaremos “tempo de entrada” para salientar nossa convenção. O tempo de primeiro retorno é
\[ T_{y}^{+}=\min \{ n\geq 1:X_n=y\} . \]
Adotamos \(\min \varnothing =\infty \) e escrevemos
\[ \rho _{xy}=\mathbb {P}_x(T_{y}^{+}\lt \infty ). \]

Quando a cadeia começa em \(y\), \(T_y^+\) é o primeiro retorno: o instante inicial não conta. Quando ela começa em \(x\ne y\), temos \(T_y^+=H_y\). Assim, \(\rho _{xy}\) é a probabilidade de atingir \(y\) em tempo positivo e \(\rho _{yy}\) é a probabilidade de retornar a \(y\).

Definição 2.5
Tempo de parada Uma variável aleatória \(T\) com valores em \(\mathbb N_0\cup \{ \infty \} \) é um tempo de parada para a informação gerada pela cadeia se, para cada \(n\), é possível decidir se \(T\leq n\) observando somente \(X_0,\ldots ,X_n\). Equivalentemente, como \(T\) assume valores inteiros, podemos exigir que seja possível decidir se \(T=n\) usando apenas a informação disponível até o instante \(n\).

Retornos, entradas e saídas fornecem exemplos básicos de tempos de parada.

Exemplo 2.16 (Tempo de primeiro retorno)
Para \(n\geq 1\),
\[ \{ T_{y}^{+}=n\} =\{ X_1\neq y,\ldots ,X_{n-1}\neq y,X_n=y\} . \]
Assim, no instante \(n\) já sabemos se o primeiro retorno ocorreu exatamente ali, e \(T_y^+\) é um tempo de parada.

Exemplo 2.17 (Entrada em um conjunto)
Se \(A\subseteq S\), defina
\[ H_A=\min \{ n\geq 0:X_n\in A\} . \]
Para decidir se \(H_A=n\), basta observar se \(X_0,\ldots ,X_{n-1}\) estão fora de \(A\) e \(X_n\in A\). Logo \(H_A\) é um tempo de parada.

Exemplo 2.18 (Saída de um conjunto)
Se \(A\subseteq S\), o primeiro instante de saída,
\[ \tau _A=\min \{ n\geq 0:X_n\notin A\} , \]
também é um tempo de parada: no instante \(n\) podemos verificar se a cadeia permaneceu em \(A\) até \(n-1\) e saiu de \(A\) em \(n\).

Exemplo 2.19 (Última visita a um estado)
Como a cadeia pode visitar \(y\) infinitas vezes, o último tempo de visita pode não existir. Podemos formalizar essa ideia por
\[ L=\sup \{ n\geq 0:X_n=y\} , \]
permitindo \(L=\infty \) e adotando uma convenção quando \(y\) nunca é visitado. Em geral, \(L\) não é um tempo de parada: para decidir no instante \(n\) que \(L=n\), seria necessário saber que a cadeia nunca mais visitará \(y\), isto é, consultar o futuro.

A regra de parada depende apenas da informação já observada.

A propriedade forte de Markov diz que a cadeia pode ser reiniciada em um tempo de parada: dali em diante, importa o estado em que ela parou, e não o caminho usado para chegar até ele.

Teorema 2.5

Propriedade forte de Markov Se \(T\) é um tempo de parada, então, no evento \(\{ T\lt \infty \} \) e condicionalmente ao estado \(X_T=y\), a trajetória futura \((X_{T+k})_{k\geq 0}\) tem a lei da cadeia iniciada em \(y\) e é independente do caminho observado até \(T\). Mais precisamente, se \(A\) é um evento determinado pelo caminho observado até \(T\), então, para \(r\geq 1\),

\[ \begin{aligned} & \mathbb {P}(X_{T+1}=z_1,\ldots ,X_{T+r}=z_r \mid A,\, X_T=y,\, T\lt \infty )\\ & \qquad =\mathbb {P}_y(X_1=z_1,\ldots ,X_r=z_r) =p(y,z_1)\prod _{k=1}^{r-1}p(z_k,z_{k+1}), \end{aligned} \]

sempre que o condicionamento estiver definido.

Em particular, para \(m\geq 0\),

\[ \mathbb {P}(X_{T+m}=j\mid X_T=i,\, T\lt \infty ) =\mathbb {P}_i(X_m=j), \]

sempre que o condicionamento estiver definido.

A hipótese de parada é essencial: uma escolha baseada em acontecimentos futuros poderia favorecer certas trajetórias e alterar a lei do processo reiniciado.

Demonstração ▼

Fixe \(r\geq 1\), estados \(z_1,\ldots ,z_r\) e um evento \(A\) determinado pelo caminho observado até \(T\), no sentido de que, para cada \(n\), o evento \(A\cap \{ T=n\} \) é determinado por \(X_0,\ldots ,X_n\). O argumento tem três passos.

1. Fixar o valor da parada. No evento \(\{ T=n\} \), a regra que determina a parada já pode ser decidida com a informação disponível até o instante \(n\). Assim,

\[ A\cap \{ T=n,X_n=y\} \]

é um evento determinado por \(X_0,\ldots ,X_n\). O instante aleatório foi, portanto, reduzido a um instante determinístico.

2. Aplicar a propriedade de Markov em \(n\). Como no Corolário 2.2, podemos somar sobre as histórias completas compatíveis com \(A\cap \{ T=n,X_n=y\} \). Em cada uma, a probabilidade do bloco futuro depende apenas do estado \(X_n=y\). Logo,

\[ \begin{aligned} & \mathbb {P}(A,T=n,X_T=y,X_{T+1}=z_1,\ldots ,X_{T+r}=z_r)\\ & \quad =\mathbb {P}(A,T=n,X_T=y)\, p(y,z_1) \prod _{j=1}^{r-1}p(z_j,z_{j+1}). \end{aligned} \]

O segundo fator é exatamente a probabilidade de a cadeia iniciada em \(y\) seguir o caminho \(y,z_1,\ldots ,z_r\); em particular, ele não depende de \(A\) nem de \(n\).

3. Somar sobre os valores possíveis de \(T\). Somando a identidade anterior em \(n\) e usando que os eventos \(\{ T=n\} \) são disjuntos, obtemos

\[ \begin{aligned} & \mathbb {P}(A,T\lt \infty ,X_T=y,X_{T+1}=z_1,\ldots ,X_{T+r}=z_r)\\ & \quad =\mathbb {P}(A,T\lt \infty ,X_T=y)\, p(y,z_1) \prod _{j=1}^{r-1}p(z_j,z_{j+1}). \end{aligned} \]

Quando a probabilidade condicionante é positiva, a divisão mostra que a lei do futuro, dado \(X_T=y\), não depende do caminho observado até \(T\). Como as probabilidades de blocos finitos determinam a lei da trajetória futura, obtemos a propriedade forte de Markov.

Exemplo 2.20 (Recomeçando em um tempo de entrada)
Considere a ruína do jogador nos estados \(\{ 0,1,2,3\} \), com \(0\) e \(3\) absorventes e, nos estados interiores,
\[ p(i,i+1)=0{,}6, \qquad p(i,i-1)=0{,}4. \]
Parta de \(1\) e seja \(T=H_2\). O evento \(\{ T\lt H_0\} \) diz que a cadeia alcançou \(2\) antes da ruína. Como \(T\) é um tempo de parada e \(X_T=2\) nesse evento, a propriedade forte de Markov permite esquecer como e quando a cadeia chegou a \(2\). Em particular,
\[ \mathbb P_1\bigl(X_{T+1}=3\mid T\lt H_0\bigr) =\mathbb {P}_2(X_1=3)=0{,}6. \]
Do mesmo modo,
\[ \mathbb P_1\bigl(X_{T+1}=1,\, X_{T+2}=2\mid T\lt H_0\bigr) =0{,}4\cdot 0{,}6=0{,}24. \]
O instante \(T\) é aleatório, mas a cadeia passa a evoluir como uma cópia iniciada em \(2\). Esse reinício permite decompor trajetórias em trechos delimitados por entradas e retornos.

Definição 2.6
Tempos de retorno sucessivos Definimos o instante do primeiro retorno por
\[ T_y^{(1)}=T_y^+, \]
e, recursivamente, o instante do \(k\)-ésimo retorno a \(y\) por

\begin{equation} T_y^{(k)}=\min \{ n\gt T_y^{(k-1)}:X_n=y\} ,\qquad k\geq 2. \label{eq:retornos-sucessivos} \tag{2.3} \end{equation}

Assim, \(T_y^{(k)}\lt \infty \) significa que a cadeia visita \(y\) pelo menos \(k\) vezes em tempos positivos.
Pela propriedade forte de Markov, após cada retorno a cadeia recomeça em \(y\) sob a lei \(\mathbb {P}_y\). Portanto,

\begin{equation} \mathbb {P}_y\bigl(T_y^{(k)}\lt \infty \bigr)=\rho _{yy}^{k}. \label{eq:prob-k-retornos} \tag{2.4} \end{equation}

Se \(\rho _{yy}=1\), cada retorno \(T_y^{(k)}\) é finito com probabilidade um; como isso vale para todo \(k\), a cadeia retorna a \(y\) infinitas vezes quase certamente. Se \(\rho _{yy}\lt 1\), a probabilidade de ocorrerem pelo menos \(k\) retornos é \(\rho _{yy}^k\), que tende a zero. Nesse caso, o número de retornos é finito quase certamente.

Ilustração: Classificação dos estados

Figura 2.11 A entrada inclui o instante inicial; o retorno exige tempo positivo. Fora de \(y\), temos \(H_y=T_y^+\). No painel B, a entrada ocorre em zero e o primeiro retorno em três. Os círculos destacam as visitas a \(y=1\); no painel A, a permanência do instante 4 para o 5 conta como novo retorno. As chaves medem intervalos em passos, e as linhas apenas guiam a leitura dos tempos discretos.

Definição 2.7

Estados recorrentes e transientes Um estado \(y\) é recorrente se \(\rho _{yy}=1\); nesse caso, a cadeia iniciada em \(y\) retorna a \(y\) infinitas vezes com probabilidade \(1\). O estado é transiente se \(\rho _{yy}\lt 1\); nesse caso, o número de visitas a \(y\) é finito com probabilidade \(1\).

Exemplo 2.21 (Um triângulo recorrente)

Considere a cadeia em \(\{ 1,2,3\} \) que, a cada passo, salta para cada um dos outros dois vértices com probabilidade \(1/2\):

\[ P= \begin{pmatrix} 0 & 1/2 & 1/2 \\ 1/2 & 0 & 1/2 \\ 1/2 & 1/2 & 0 \end{pmatrix}. \]
Ilustração: Classificação dos estados
Figura 2.12 Grafo de transições do triângulo recorrente. De cada vértice, a cadeia salta para cada um dos outros dois com probabilidade \(1/2\).

Partindo de \(1\), depois do primeiro passo a cadeia está em \(2\) ou \(3\). Enquanto não retorna a \(1\), em cada passo há probabilidade \(1/2\) de continuar no outro vértice sem visitar \(1\). Portanto, para \(n\geq 1\),

\[ \mathbb P_1(T_1^+\gt n)=\left(\frac12\right)^{n-1}\longrightarrow 0. \]

Logo \(\mathbb P_1(T_1^+\lt \infty )=1\), e o estado \(1\) é recorrente. Por simetria, os três estados são recorrentes.

Assim, recorrência não significa “permanecer perto” de \(y\): ela afirma apenas que, partindo de \(y\), a cadeia retorna a \(y\) com probabilidade um. A definição, por si só, não impõe que esse retorno seja rápido. Transiência significa que, partindo de \(y\), há probabilidade positiva de nunca mais retornar.

A diferença aparece já na ruína do jogador: os estados absorventes são recorrentes, enquanto os estados internos são transientes.

Exemplo 2.22 (Ruína do jogador)

No jogo do Exemplo 2.2 com \(N=5\), os estados 0 e 5 são absorventes e, portanto, recorrentes. Os estados internos são transientes. De fato, a partir de cada um deles existe um caminho de probabilidade positiva até uma barreira absorvente sem retornar ao ponto de partida:

\[ 1\to 0, \qquad 2\to 1\to 0, \qquad 3\to 4\to 5, \qquad 4\to 5. \]

Por exemplo,

\[ \mathbb {P}_2(T_2^+=\infty )\geq p(2,1)p(1,0)=0{,}36\gt 0. \]

O mesmo argumento vale para 1, 3 e 4. Assim, cada estado interno tem probabilidade positiva de nunca retornar.

A estrutura do grafo fornece critérios para identificar estados transientes e recorrentes.

Duas noções do grafo de transições serão usadas repetidamente. A primeira é orientada: pergunta se existe algum caminho possível de \(x\) até \(y\). A segunda exige caminhos nos dois sentidos.

Definição 2.8

Acessibilidade e comunicação Dizemos que \(y\) é acessível a partir de \(x\), e escrevemos \(x\to y\), se

\[ \mathbb {P}_x(H_y\lt \infty )\gt 0. \]

Equivalentemente, \(x\to y\) se e somente se \(P^m(x,y)\gt 0\) para algum \(m\geq 0\): atingir \(y\) em tempo finito com probabilidade positiva equivale à existência de um caminho finito de \(x\) até \(y\) cujas transições tenham probabilidade positiva. Usaremos as duas formulações indistintamente.

Dizemos que \(x\) e \(y\) se comunicam, e escrevemos \(x\leftrightarrow y\), se \(x\to y\) e \(y\to x\). Os conjuntos de estados que se comunicam entre si são chamados de classes de comunicação da cadeia.

Lema 2.6

Transitividade da acessibilidade Se \(x\to y\) e \(y\to z\), então \(x\to z\).

Demonstração ▼

Existem \(m,n\) tais que \(P^{m}(x,y)\gt 0\) e \(P^{n}(y,z)\gt 0\). Por Chapman–Kolmogorov,

\[ P^{m+n}(x,z)\geq P^{m}(x,y)P^{n}(y,z)\gt 0. \]

Como \(H_x=0\) sob \(\mathbb P_x\), temos \(x\to x\) para todo estado \(x\). A comunicação é simétrica por definição e, pelo lema, também é transitiva. Portanto, \(\leftrightarrow \) é uma relação de equivalência: as classes de comunicação formam uma partição do espaço de estados.

Teorema 2.7

Um caminho sem retorno Se \(\rho _{xy}\gt 0\) e \(\rho _{yx}\lt 1\), então \(x\) é transiente.

Demonstração ▼

Se \(x=y\), a hipótese \(\rho _{xx}\lt 1\) já afirma que \(x\) é transiente. Suponha, portanto, \(x\ne y\). Seja \(K\geq 1\) o menor comprimento de um caminho de probabilidade positiva de \(x\) até \(y\). Escreva esse caminho como

\[ x=x_0,x_1,\ldots ,x_K=y, \qquad \prod _{i=0}^{K-1}p(x_i,x_{i+1})\gt 0. \]

Pela minimalidade de \(K\), nenhum dos estados \(x_1,\ldots ,x_{K-1}\) é igual a \(x\): caso contrário, poderíamos eliminar o trecho entre duas visitas a \(x\) e obter um caminho mais curto até \(y\). Depois de chegar a \(y\), há probabilidade \(1-\rho _{yx}\gt 0\) de nunca atingir \(x\). Logo,

\[ \mathbb {P}_x(T_x^+=\infty ) \geq \left(\prod _{i=0}^{K-1}p(x_i,x_{i+1})\right)(1-\rho _{yx})\gt 0, \]

e \(x\) é transiente.

Uma consequência imediata é a seguinte.

Lema 2.8

Retorno a partir de estados alcançáveis Se \(x\) é recorrente e \(\rho _{xy}\gt 0\), então \(\rho _{yx}=1\).

Demonstração ▼

Se \(\rho _{y x}\lt 1\), então o Teorema 2.7 implicaria que \(x\) é transiente, uma contradição.

Definição 2.9
Conjuntos fechados e irredutibilidade Um conjunto \(A\subseteq S\) é fechado se não é possível sair dele:
\[ i\in A,\ j\notin A \quad \Longrightarrow \quad p(i,j)=0. \]
Um conjunto \(B\subseteq S\) é irredutível se quaisquer dois estados de \(B\) se comunicam. A cadeia é irredutível quando o próprio espaço \(S\) é irredutível.

Um conjunto fechado é uma região da qual a cadeia não sai. A irredutibilidade significa que cada estado pode ser alcançado a partir de qualquer outro. Na definição de um subconjunto \(B\), os caminhos são considerados na cadeia original; quando \(B\) também é fechado, esses caminhos permanecem em \(B\). Em uma cadeia finita, veremos que as classes fechadas são exatamente as regiões recorrentes da cadeia.

Exemplo 2.23 (Duas classes fechadas em quatro estados)

Considere a cadeia em \(\{ 0,1,2,3\} \), com matriz

\[ P=\begin{pmatrix} 1 & 0 & 0 & 0 \\ 1/4 & 1/4 & 1/2 & 0 \\ 0 & 0 & 1/2 & 1/2 \\ 0 & 0 & 1/3 & 2/3 \end{pmatrix}. \]
Figura não resolvida: figuras/classificacao-quatro-estados.tikz
Figura 2.13 O estado \(1\) pode alcançar duas classes fechadas, \(\{ 0\} \) e \(\{ 2,3\} \), mas nenhuma delas permite retornar a \(1\).

O estado \(0\) é absorvente; os estados \(2\) e \(3\) se comunicam e formam uma classe fechada. Já o estado \(1\) é transiente: depois de chegar a \(0\), \(2\) ou \(3\), a cadeia não volta a \(1\).

Podemos calcular a probabilidade \(h\) de alcançar \(0\) antes de entrar em \(\{ 2,3\} \), partindo de \(1\). No primeiro passo, a cadeia vai a \(0\) com probabilidade \(1/4\), fica em \(1\) com probabilidade \(1/4\) ou entra em \(2\) com probabilidade \(1/2\). Logo,

\[ h=\frac14+\frac14 h,\qquad \text{portanto}\qquad \boxed {h=\frac13}. \]

A chance de entrar primeiro na classe \(\{ 2,3\} \) é \(2/3\). A decomposição em classes reduziu o cálculo a uma equação de primeiro passo.

As classes fechadas podem ser reconhecidas diretamente no grafo de transições, como na cadeia a seguir.

Exemplo 2.24 (Uma cadeia de sete estados)

Considere a matriz de transição:

\[ \begin{array}{c|ccccccc}& \mathbf{1} & \mathbf{2} & \mathbf{3} & \mathbf{4} & \mathbf{5} & \mathbf{6} & \mathbf{7} \\ \hline \mathbf{1} & 0{,}7 & 0 & 0 & 0 & 0{,}3 & 0 & 0 \\ \mathbf{2} & 0{,}1 & 0{,}2 & 0{,}3 & 0{,}4 & 0 & 0 & 0 \\ \mathbf{3} & 0 & 0 & 0{,}5 & 0{,}3 & 0{,}2 & 0 & 0 \\ \mathbf{4} & 0 & 0 & 0 & 0{,}5 & 0 & 0{,}5 & 0 \\ \mathbf{5} & 0{,}6 & 0 & 0 & 0 & 0{,}4 & 0 & 0 \\ \mathbf{6} & 0 & 0 & 0 & 0 & 0 & 0{,}2 & 0{,}8 \\ \mathbf{7} & 0 & 0 & 0 & 1 & 0 & 0 & 0 \end{array} \]

Desenhe uma seta de \(i\) para \(j\) quando \(p(i,j)\gt 0\) e \(i\ne j\). Os laços correspondentes a \(p(i,i)\gt 0\) foram omitidos: eles não alteram quais estados são alcançáveis, embora sejam relevantes para a periodicidade.

A Figura 2.14 destaca as duas classes fechadas.

Ilustração: Classificação dos estados
Figura 2.14 Grafo da cadeia de sete estados, com as classes fechadas destacadas. Os laços não estão desenhados.

O estado 2 alcança 1, mas 1 não alcança 2; pelo Teorema 2.7, o estado 2 é transiente. Do mesmo modo, 3 alcança 4, mas 4 não alcança 3, e portanto 3 é transiente.

As classes \(\{ 1,5\} \) e \(\{ 4,6,7\} \) são fechadas e irredutíveis. Há conjuntos fechados maiores — por exemplo, a união \(\{ 1,4,5,6,7\} \) e o espaço inteiro —, mas são as classes fechadas que determinam os estados recorrentes. A recorrência dessas classes será demonstrada por meio de tentativas repetidas.

Antes de aplicar a estimativa de tentativas repetidas, recordemos a continuidade das probabilidades e uma regra de somação não negativa. Essas ferramentas também serão usadas na contagem de visitas e em espaços enumeráveis.

Uma série de números não negativos é o supremo de suas somas parciais; seu valor pode ser \(+\infty \). Para uma família \(a_{ij}\geq 0\), podemos somar por linhas ou por colunas:

\[ \sum _{i=1}^{\infty }\sum _{j=1}^{\infty }a_{ij} =\sup _{r,s\geq 1}\sum _{i=1}^{r}\sum _{j=1}^{s}a_{ij} =\sum _{j=1}^{\infty }\sum _{i=1}^{\infty }a_{ij}. \]

Proposição 2.9
Continuidade das probabilidades Se os eventos \(A_m\) crescem, isto é,
\[ A_1\subseteq A_2\subseteq A_3\subseteq \cdots , \]
então
\[ \mathbb {P}\left(\bigcup _{m=1}^{\infty }A_m\right) =\lim _{m\to \infty }\mathbb {P}(A_m). \]
Se os eventos \(A_m\) decrescem, isto é,
\[ A_1\supseteq A_2\supseteq A_3\supseteq \cdots , \]
então
\[ \mathbb {P}\left(\bigcap _{m=1}^{\infty }A_m\right) =\lim _{m\to \infty }\mathbb {P}(A_m). \]
Em particular, se \(T\) é um tempo de parada, então
\[ \mathbb {P}(T\lt \infty ) =\lim _{n\to \infty }\mathbb {P}(T\leq n), \qquad \mathbb {P}(T=\infty ) =\lim _{n\to \infty }\mathbb {P}(T\gt n). \]
Assim, se \(T\lt \infty \) quase certamente, então \(\mathbb {P}(T\gt n)\to 0\).

Demonstração ▼

Para verificar a afirmação sobre eventos crescentes, escreva \(D_1=A_1\) e \(D_m=A_m\setminus A_{m-1}\) para \(m\geq 2\). Esses eventos são disjuntos, e a aditividade enumerável dá

\[ \mathbb {P}\left(\bigcup _{m=1}^{\infty }A_m\right) =\sum _{m=1}^{\infty }\mathbb {P}(D_m) =\lim _{r\to \infty }\sum _{m=1}^{r}\mathbb {P}(D_m) =\lim _{r\to \infty }\mathbb {P}(A_r). \]

Aplicando essa identidade aos complementares, obtemos a continuidade para eventos decrescentes. Para um tempo de parada \(T\), os eventos \(\{ T\leq n\} \) crescem para \(\{ T\lt \infty \} \), enquanto \(\{ T\gt n\} \) decrescem para \(\{ T=\infty \} \). As duas identidades finais seguem das duas formas de continuidade.

Lema 2.10
Tentativas repetidas Seja \(D\subseteq S\) um conjunto fechado. Suponha que existam \(k\geq 1\) e \(\alpha \gt 0\) tais que
\[ \mathbb {P}_x(T_{y}^{+}\leq k)\geq \alpha \]
para todo \(x\in D\). Então, para todo \(x\in D\) e \(n\geq 0\),
\[ \mathbb {P}_{x}\left(T_{y}^{+}\gt n k\right) \leq (1-\alpha )^{n}. \]
Em particular, \(\mathbb {P}_x(T_{y}^{+}\lt \infty )=1\) para todo \(x\in D\).

Demonstração ▼

Fixe \(x\in D\) e, para \(n\geq 0\), escreva

\[ A_n=\{ T_y^+\gt nk\} . \]

O evento \(A_n\) significa que a cadeia chegou ao instante \(nk\) sem visitar \(y\) em tempo positivo. Como \(D\) é fechado e a cadeia começou em \(D\), no evento \(A_n\) temos necessariamente

\[ X_{nk}\in D. \]

Reiniciamos a análise no instante \(nk\). Fixe \(z\in D\) e suponha que o condicionamento abaixo esteja definido. O instante determinístico \(nk\) é um tempo de parada, e \(A_n\) é determinado pelo caminho observado até esse instante. Pela propriedade forte de Markov,

\[ \mathbb P_x\bigl(A_{n+1}\mid A_n,\, X_{nk}=z\bigr) =\mathbb P_z(T_y^+\gt k). \]

Sabendo que a cadeia sobreviveu até \(nk\) e que está em \(z\), a probabilidade de evitar \(y\) durante os próximos \(k\) passos é a mesma que para uma nova cadeia iniciada em \(z\). O caminho percorrido antes de \(nk\) não entra mais no cálculo.

Pela hipótese do lema,

\[ \mathbb P_z(T_y^+\leq k)\geq \alpha \qquad \text{para todo }z\in D. \]

Tomando complementares,

\[ \mathbb P_z(T_y^+\gt k)\leq 1-\alpha \qquad \text{para todo }z\in D. \]

Portanto, qualquer que seja o estado ocupado no instante \(nk\), a probabilidade de sobreviver ao próximo bloco de \(k\) passos é no máximo \(1-\alpha \).

Se \(\mathbb P_x(A_n)=0\), então também \(\mathbb P_x(A_{n+1})=0\) e a desigualdade que queremos é imediata. Suponha, pois, \(\mathbb P_x(A_n)\gt 0\). Condicionando pelos possíveis valores de \(X_{nk}\) no evento \(A_n\), obtemos

\[ \begin{aligned} \mathbb P_x(A_{n+1}\mid A_n) & = \sum _{z\in D} \mathbb P_x(A_{n+1}\mid A_n,\, X_{nk}=z)\, \mathbb P_x(X_{nk}=z\mid A_n)\\ & \leq (1-\alpha ) \sum _{z\in D}\mathbb P_x(X_{nk}=z\mid A_n)\\ & =1-\alpha . \end{aligned} \]

Assim, como \(A_{n+1}\subseteq A_n\),

\[ \begin{aligned} \mathbb P_x(T_y^+\gt (n+1)k) & =\mathbb P_x(A_{n+1})\\ & =\mathbb P_x(A_{n+1}\mid A_n)\, \mathbb P_x(A_n)\\ & \leq (1-\alpha )\mathbb P_x(T_y^+\gt nk). \end{aligned} \]

Iterando essa desigualdade e usando \(\mathbb P_x(T_y^+\gt 0)\leq 1\), concluímos que

\[ \mathbb P_x(T_y^+\gt nk)\leq (1-\alpha )^n, \qquad n\geq 0. \]

Por fim, os eventos \(\{ T_y^+\gt nk\} \) decrescem para \(\{ T_y^+=\infty \} \). Pela continuidade das probabilidades (pela Proposição 2.9),

\[ \mathbb P_x(T_y^+=\infty ) =\lim _{n\to \infty }\mathbb P_x(T_y^+\gt nk) \leq \lim _{n\to \infty }(1-\alpha )^n =0. \]

Logo \(\mathbb P_x(T_y^+\lt \infty )=1\).

Ilustração: Classificação dos estados

Figura 2.15 A ideia das tentativas repetidas. No evento \(A_n\), a cadeia chega ao instante \(nk\) sem visitar \(y\) e ocupa algum estado \(z\in D\). Pela propriedade forte de Markov, a análise recomeça em \(z\); a hipótese garante probabilidade pelo menos \(\alpha \) de visitar \(y\) nos próximos \(k\) passos e, portanto, probabilidade no máximo \(1-\alpha \) de sobreviver ao bloco seguinte.

Dentro de uma classe finita sem saída, há sempre uma nova oportunidade de voltar a qualquer estado fixado. A finitude permite tornar essa oportunidade uniforme, independentemente do ponto de partida.

Teorema 2.11
Classes fechadas finitas Se \(C\) é um conjunto finito, fechado e irredutível, todos os seus estados são recorrentes.

Demonstração ▼

Fixe \(y\in C\). Para cada \(x\in C\), escolha um caminho de probabilidade positiva que, partindo de \(x\), visite \(y\) em tempo positivo. Quando \(x\ne y\), isso é possível pela irredutibilidade. Para \(x=y\), precisamos de um caminho de retorno: se \(C=\{ y\} \), o fato de \(C\) ser fechado implica \(p(y,y)=1\); se \(C\) tem mais de um estado, podemos ir de \(y\) a outro estado da classe e depois voltar a \(y\).

Denote por \(\ell _x\geq 1\) o comprimento do caminho escolhido e por \(q_x\gt 0\) a probabilidade de segui-lo. Como \(C\) é finito,

\[ k=\max _{x\in C}\ell _x\lt \infty , \qquad \alpha =\min _{x\in C}q_x\gt 0. \]

Consequentemente,

\[ \mathbb P_x(T_y^+\leq k)\geq \alpha \qquad \text{para todo }x\in C. \]

Como \(C\) é fechado, o Lema 2.10 se aplica e dá

\[ \mathbb P_y(T_y^+\lt \infty )=1. \]

Logo \(y\) é recorrente. Como \(y\) foi arbitrário, todos os estados de \(C\) são recorrentes.

No exemplo de sete estados, isso mostra imediatamente que todos os estados das classes \(\{ 1,5\} \) e \(\{ 4,6,7\} \) são recorrentes.

Em uma cadeia finita, as classes fechadas são precisamente as classes recorrentes. Isso permite decompor o espaço de estados.

Teorema 2.12
Decomposição de uma cadeia finita Se \(S\) é finito e não vazio, ele se decompõe na união disjunta
\[ S=\mathcal T\cup R_1\cup \cdots \cup R_k, \]
onde \(\mathcal T\) é o conjunto dos estados transientes e \(R_1,\ldots ,R_k\) são as classes de comunicação fechadas. Todos os estados de cada \(R_i\) são recorrentes.

Demonstração ▼

Contraia cada classe de comunicação a um único vértice e mantenha uma seta entre duas classes distintas quando existe uma transição de probabilidade positiva da primeira para a segunda. O grafo resultante é finito e não possui circuitos dirigidos: se várias classes formassem um circuito, seus estados se comunicariam e pertenceriam à mesma classe.

As classes sem seta de saída são exatamente as classes fechadas. Como o grafo é finito e não possui circuitos dirigidos, seguindo sucessivamente as setas a partir de qualquer classe chegamos, após um número finito de passos, a uma classe da qual não sai nenhuma seta. Portanto, existe pelo menos uma classe fechada. Pelo Teorema 2.11, todos os estados dessas classes são recorrentes.

Considere agora uma classe \(C\) que não é fechada. Seguindo setas no grafo das classes, chegamos depois de um número finito de passos a alguma classe fechada \(R\). Assim, para \(x\in C\) e algum \(y\in R\), temos \(x\to y\). Por outro lado, \(y\not\to x\): caso contrário, \(x\) e \(y\) se comunicariam e pertenceriam à mesma classe. Pelo Teorema 2.7, \(x\) é transiente. Como \(x\) era arbitrário em \(C\), toda classe não fechada é formada por estados transientes.

As classes de comunicação particionam \(S\). Reunindo as classes não fechadas em \(\mathcal T\) e enumerando as classes fechadas como \(R_1,\ldots ,R_k\), obtemos a decomposição afirmada.

Figura não resolvida: figuras/classes-comunicacao.tikz

Figura 2.16 Grafo das classes de comunicação após contrair cada classe a um vértice. As classes fechadas não têm setas de saída.

2.4 Contagem de visitas e critério de recorrência

A probabilidade de retorno informa se a cadeia volta a um estado; agora queremos contar quantas vezes ela volta. A fórmula da cauda liga essa contagem à esperança.

Lema 2.13
Fórmula da cauda Se \(Z\) assume valores em \(\mathbb N_0\cup \{ \infty \} \), então
\[ E Z=\sum _{k=1}^{\infty }\mathbb {P}(Z\geq k) =\sum _{n=0}^{\infty }\mathbb {P}(Z\gt n), \]
com a possibilidade de ambos os lados serem infinitos.

Demonstração ▼

Se \(\mathbb {P}(Z=+\infty )\gt 0\), a esperança é infinita e cada termo da primeira série é pelo menos essa probabilidade. A identidade vale nesse caso.

Suponha agora \(\mathbb {P}(Z=+\infty )=0\) e escreva \(p_j=\mathbb {P}(Z=j)\). Pela definição de esperança de uma variável discreta, \(E Z=\sum _{j\geq 1}j p_j\). Para cada \(M\), uma soma finita dá

\[ \sum _{j=1}^{M}j p_j =\sum _{k=1}^{M}\sum _{j=k}^{M}p_j \leq \sum _{k=1}^{\infty }\mathbb {P}(Z\geq k). \]

Tomando o supremo em \(M\), obtemos uma das desigualdades. Na direção oposta, para cada \(K\), particionamos os resultados em \(Z=1,\ldots ,K-1\) e \(Z\geq K\):

\[ \begin{aligned} \sum _{k=1}^{K}\mathbb {P}(Z\geq k) & =\sum _{j=1}^{K-1}j p_j+K\mathbb {P}(Z\geq K)\\ & =\sum _{j=1}^{K-1}j p_j+K\sum _{j=K}^{\infty }p_j \leq \sum _{j=1}^{\infty }j p_j=E Z. \end{aligned} \]

Tomar o supremo em \(K\) fornece a desigualdade restante. A segunda série do enunciado é a primeira com o índice deslocado, pois \(Z\) assume valores inteiros.

A versão truncada é a identidade finita

\[ Z\wedge M=\sum _{k=1}^{M}\mathbf1_{\{ Z\geq k\} }, \qquad E(Z\wedge M)=\sum _{k=1}^{M}\mathbb {P}(Z\geq k). \]

Cada nível alcançado por \(Z\) contribui uma unidade para a esperança truncada.

Retomemos agora os tempos de retorno sucessivos definidos em (2.3). Pela propriedade forte de Markov, para \(x,y\in S\) e \(k\geq 1\),

\begin{equation} \mathbb {P}_{x}\left(T_{y}^{(k)}\lt \infty \right) =\rho _{x y}\rho _{y y}^{k-1}. \label{eq:retorno-k-partindo-x} \tag{2.5} \end{equation}

Seja \(N(y)\) o número de visitas a \(y\) nos instantes \(n\geq 1\). A identidade acima permite calcular \(E_xN(y)\).

Lema 2.14

Número esperado de visitas Vale

\[ E_xN(y)= \begin{cases} 0, & \rho _{xy}=0,\\[1mm] \dfrac {\rho _{xy}}{1-\rho _{yy}}, & \rho _{xy}\gt 0,\ \rho _{yy}\lt 1,\\[2mm] +\infty , & \rho _{xy}\gt 0,\ \rho _{yy}=1. \end{cases} \]
Se \(y\) não pode ser alcançado, não há visitas a contar, ainda que \(y\) seja recorrente quando a cadeia começa nele. Separar os casos evita o quociente indeterminado \(0/0\).

Demonstração ▼

Aplicaremos a fórmula da cauda do Lema 2.13 à contagem \(N(y)\), que pode ser infinita. Para cada \(k\geq 1\),

\[ \{ N(y)\geq k\} =\{ T_y^{(k)}\lt \infty \} . \]

Usando (2.5), obtemos

\[ E_xN(y)=\sum _{k=1}^{\infty }\mathbb {P}_x(T_y^{(k)}\lt \infty ). \]

Se \(\rho _{xy}=0\), cada parcela é zero. Se \(\rho _{xy}\gt 0\) e \(\rho _{yy}\lt 1\), então

\[ \begin{aligned} E_xN(y) & =\sum _{k=1}^{\infty }\rho _{xy}\rho _{yy}^{k-1}\\ & =\rho _{xy}\sum _{j=0}^{\infty }\rho _{yy}^{j}\\ & =\frac{\rho _{xy}}{1-\rho _{yy}}, \end{aligned} \]

pela soma da série geométrica. Se \(\rho _{xy}\gt 0\) e \(\rho _{yy}=1\), todas as parcelas valem \(\rho _{xy}\gt 0\) e, portanto, a soma é infinita.

Exemplo 2.25 (Duas salas e uma saída: contando visitas)
Retomemos a cadeia do Exemplo 2.14. Quantas vezes, em média, a pessoa visita a sala \(2\) quando começa na sala \(1\)? Primeiro, precisamos da probabilidade \(\rho _{12}\) de alcançar a sala \(2\). Condicionando pelo primeiro passo, ela pode ir diretamente à sala \(2\) ou permanecer na sala \(1\) e tentar novamente:
\[ \rho _{12}=\frac14+\frac12\rho _{12}, \qquad \text{portanto}\qquad \rho _{12}=\frac12. \]
Para retornar à sala \(2\) começando nela, a pessoa pode permanecer nessa sala no primeiro passo ou ir à sala \(1\) e depois alcançar a sala \(2\). Assim,
\[ \rho _{22}=\frac12+\frac14\rho _{12}=\frac58. \]
Aplicando o lema,
\[ E_1N(2)=\frac{\rho _{12}}{1-\rho _{22}} =\frac{1/2}{1-5/8}=\boxed {\frac43}. \]
Embora a probabilidade de chegar à sala \(2\) seja somente \(1/2\), a esperança é maior que \(1\): quem chega pode visitar a sala várias vezes antes de sair. De fato, entre as trajetórias que chegam à sala \(2\), o número esperado de visitas é \((4/3)/(1/2)=8/3\).

Lema 2.15

Visitas e probabilidades de transição O número esperado de visitas também satisfaz

\[ E_xN(y)=\sum _{n=1}^{\infty }P^{n}(x,y). \]

Demonstração ▼

Conte primeiro as visitas até o instante \(m\):

\[ N_m(y)=\sum _{n=1}^{m}\mathbf1_{\{ X_n=y\} }, \qquad E_xN_m(y)=\sum _{n=1}^{m}P^n(x,y), \]

pela linearidade da esperança de uma soma finita. Para cada \(k\geq 1\), os eventos \(\{ N_m(y)\geq k\} \) crescem para \(\{ N(y)\geq k\} \). Pela continuidade das probabilidades, \(\mathbb P_x(N(y)\geq k)=\sup _m\mathbb P_x(N_m(y)\geq k)\). Essas probabilidades são não negativas e crescem com \(m\); por isso, os supremos que definem as somas podem ser tomados em qualquer ordem:

\[ \begin{aligned} E_xN(y) & =\sum _{k\geq 1}\sup _m\mathbb P_x(N_m(y)\geq k)\\ & =\sup _m\sum _{k\geq 1}\mathbb P_x(N_m(y)\geq k) =\sup _m E_xN_m(y)\\ & =\sum _{n=1}^{\infty }P^n(x,y). \end{aligned} \]

Usamos apenas a fórmula da cauda e o princípio de que uma soma de termos não negativos é o supremo de suas somas finitas. O argumento também vale quando a esperança é infinita.

Exemplo 2.26 (Duas salas e uma saída: somando as probabilidades)
Podemos conferir o resultado do Exemplo 2.25 de outra maneira. A diagonalização feita no Exemplo 2.14 nos deu, para \(n\geq 1\),
\[ P^n(1,2) =\frac12\left[\left(\frac34\right)^n -\left(\frac14\right)^n\right]. \]
Pelo lema anterior e pela soma das séries geométricas,
\[ \begin{aligned} E_1N(2) & =\sum _{n=1}^{\infty }P^n(1,2)\\ & =\frac12\left[ \sum _{n=1}^{\infty }\left(\frac34\right)^n -\sum _{n=1}^{\infty }\left(\frac14\right)^n\right]\\ & =\frac12\left(3-\frac13\right)=\boxed {\frac43}. \end{aligned} \]
Obtivemos o mesmo número de duas formas: antes contamos as visitas pela chegada inicial e pelos retornos sucessivos; agora somamos, instante a instante, as probabilidades de ocupar a sala \(2\).

Teorema 2.16

Critério de recorrência Um estado \(y\) é recorrente se, e somente se,

\[ \sum _{n=1}^{\infty }P^{n}(y,y)=\infty . \]

Demonstração ▼

Pelos Lemas 2.14 e 2.15, a série é \(E_yN(y)\), que é infinita exatamente quando \(\rho _{yy}=1\).

Lema 2.17
Recorrência em uma classe Se \(x\) é recorrente e \(x\to y\), então \(y\) é recorrente.

Demonstração ▼

Se \(x=y\), nada há a provar. Caso contrário, o Lema 2.8 garante \(y\to x\). Escolha \(j,\ell \geq 1\) tais que \(P^{j}(y,x)\gt 0\) e \(P^{\ell }(x,y)\gt 0\). Por Chapman–Kolmogorov,

\[ P^{j+n+\ell }(y,y) \geq P^{j}(y,x)P^n(x,x)P^{\ell }(x,y) \qquad (n\geq 0). \]

Somando em \(n\),

\[ \sum _{n=0}^{\infty }P^{j+n+\ell }(y,y) \geq P^{j}(y,x) \left(\sum _{n=0}^{\infty }P^{n}(x,x)\right) P^{\ell }(x,y). \]

Como \(x\) é recorrente, o critério anterior mostra que \(\sum _{n\geq 1}P^n(x,x)=\infty \); acrescentar o termo \(P^0(x,x)=1\) não altera a divergência. Logo a série no lado direito é infinita. Portanto a série de retornos a \(y\) também diverge, e o mesmo critério implica que \(y\) é recorrente.

A recorrência informa se voltamos a um estado; a periodicidade descreve em quais instantes esses retornos são possíveis.

2.5 Periodicidade dos estados

Definição 2.10

Período e aperiodicidade Para um estado \(x\), considere o conjunto dos possíveis tempos de retorno

\[ I_x=\{ n\geq 1:P^{n}(x,x)\gt 0\} . \]

Quando \(I_x\) é não vazio, o período de \(x\) é o máximo divisor comum de seus elementos. Se \(I_x=\varnothing \), não há retorno possível e não atribuímos período ao estado. O estado é aperiódico quando seu período é \(1\).

O período não mede quanto tempo a cadeia costuma levar para voltar. Ele detecta um ritmo obrigatório: período \(d\gt 1\) significa que todo retorno só pode ocorrer em tempos múltiplos de \(d\).

Exemplo 2.27 (Periodicidade na cadeia de Ehrenfest)

Na cadeia de Ehrenfest, uma bola muda de urna a cada passo. Portanto, o número de bolas na urna esquerda troca de paridade em todos os instantes: de um estado par a cadeia vai para um estado ímpar, e vice-versa.

Consequentemente, um retorno ao estado inicial só pode ocorrer após um número par de passos. Por outro lado, de qualquer estado há probabilidade positiva de mover uma bola e devolvê-la no passo seguinte. Assim,

\[ P^{2}(x,x)\gt 0 \qquad \text{e}\qquad P^{2m+1}(x,x)=0, \]

para todo estado \(x\). Como \(2\) é um tempo possível de retorno e todos os tempos de retorno são pares, o período é \(2\).

Exemplo 2.28 (Triângulo e quadrado)

Considere a cadeia da Figura 2.17. A partir de 0, escolhemos com probabilidade \(1/2\) um circuito de comprimento 3 ou um circuito de comprimento 4; depois de escolhido o circuito, o percurso de volta a 0 é determinístico.

Ilustração: Periodicidade dos estados Ilustração: Periodicidade dos estados
Figura 2.17 Dois circuitos de comprimentos três e quatro. A cadeia pode voltar a zero em tempos de máximo divisor comum um.

Temos \(P^{3}(0,0)\gt 0\) e \(P^{4}(0,0)\gt 0\). Como o máximo divisor comum de 3 e 4 é 1, o estado 0 é aperiódico, mesmo que \(p(0,0)=0\). O exemplo mostra que a existência de uma permanência é suficiente, mas não necessária, para aperiodicidade.

Lema 2.18

Períodos em uma classe Estados que se comunicam e admitem retorno em tempo positivo têm o mesmo período.

Demonstração ▼

Escolha \(k,m\) tais que \(P^{k}(x,y)\gt 0\) e \(P^{m}(y,x)\gt 0\). Então

\[ P^{k+m}(x,x) \geq P^{k}(x,y)P^{m}(y,x)\gt 0. \]

Logo, o período de \(x\) divide \(k+m\). Para qualquer \(\ell \in I_y\),

\[ P^{k+\ell +m}(x,x) \geq P^{k}(x,y)P^{\ell }(y,y)P^{m}(y,x)\gt 0, \]

de modo que \(k+\ell +m\in I_x\). Subtraindo \(k+m\), concluímos que o período de \(x\) divide todo \(\ell \in I_y\); portanto, ele divide o período de \(y\). Trocando \(x\) e \(y\), obtemos a divisibilidade oposta. Os dois períodos são iguais.

Lema 2.19
Permanência e aperiodicidade Se \(p(x,x)\gt 0\), então \(x\) tem período \(1\).

Demonstração ▼

Nesse caso, \(1\in I_x\), e o máximo divisor comum de um conjunto que contém \(1\) só pode ser \(1\).

No canal de comunicação do Exemplo 2.7, se \(0\lt a,b\lt 1\), ambos os estados possuem permanência positiva; portanto, a cadeia é aperiódica. Em uma cadeia irredutível, basta encontrar um único estado aperiódico, pois o Lema 2.18 transfere o período para toda a classe.

Voltaremos à periodicidade no próximo capítulo, ao investigar o comportamento das potências \(P^n\).

A classificação descreve a possibilidade de retorno. Em problemas de saída, interessa identificar por qual parte da fronteira a cadeia deixa uma região.

2.6 Distribuições de saída

Se \(A\subseteq S\), definimos o tempo de entrada em \(A\) por

\[ H_A=\min \{ n\geq 0:X_n\in A\} . \]

Se \(A\) e \(B\) são disjuntos, escrevemos \(C=S\setminus (A\cup B)\). Partindo de \(x\in C\), a cadeia pode visitar vários estados de \(C\) antes de entrar em \(A\) ou em \(B\). Queremos saber qual conjunto ela atinge primeiro, e não onde estará em um instante fixo.

Figura não resolvida: figuras/distribuicoes-saida-esquema.tikz
Figura 2.18 Partindo de \(x\in C\), a cadeia pode circular entre os estados interiores antes de sair por \(A\) ou por \(B\). As setas coloridas indicam as duas possibilidades de primeira saída; não supomos que \(A\) e \(B\) sejam absorventes.

A probabilidade de atingir \(A\) primeiro é \(h(x)=\mathbb P_x(H_A\lt H_B)\). Ela vale \(1\) em \(A\) e \(0\) em \(B\); dentro de \(C\), o valor é determinado pela análise do primeiro passo. O próximo teorema torna essas condições precisas.

Teorema 2.20

Problema de Dirichlet para cadeias de Markov Sejam \(A,B\subseteq S\) disjuntos e suponha que \(C=S\setminus (A\cup B)\) seja finito. Admita que \(H_A\wedge H_B\lt \infty \) quase certamente a partir de todo estado de \(C\). Então

\[ h(x)=\mathbb {P}_x(H_A\lt H_B) \]

é a única função que satisfaz

\[ \begin{cases} h(x)=1, & x\in A,\\ h(x)=0, & x\in B,\\ h(x)=\displaystyle \sum _y p(x,y)h(y), & x\in C. \end{cases} \]

Demonstração ▼

As condições na fronteira são imediatas: se a cadeia começa em \(A\), já atingiu \(A\) antes de \(B\); se começa em \(B\), ocorre o contrário. Para \(x\in C\), condicionando pelo primeiro passo e usando a propriedade de Markov,

\[ \mathbb {P}_x(H_A\lt H_B) =\sum _y p(x,y)\mathbb {P}_y(H_A\lt H_B). \]

Logo, \(h\) satisfaz as equações do enunciado.

Para a unicidade, seja \(u\) outra solução e ponha \(T=H_A\wedge H_B\). Mostraremos primeiro que, para todo \(n\geq 0\),

\[ u(x)=E_x\bigl[u(X_{T\wedge n})\bigr]. \]

Para \(n=0\), isso é simplesmente \(u(x)=u(X_0)\). Para passar de \(n\) a \(n+1\), distinguimos dois casos. Se \(T\leq n\), a cadeia já chegou à fronteira e o valor observado em \(T\wedge (n+1)\) é o mesmo observado em \(T\wedge n\). Se \(T\gt n\), então \(X_n\in C\) e podemos usar a equação harmônica \(u(X_n)=\sum _y p(X_n,y)u(y)\). Essa passagem pode ser justificada sem introduzir esperança condicional em relação a toda a trajetória. Para \(z\in C\) e qualquer \(y\), o evento \(\{ T\gt n,X_n=z\} \) depende apenas dos estados até o instante \(n\), de modo que a propriedade de Markov fornece

\[ \mathbb P_x(T\gt n,X_n=z,X_{n+1}=y) =\mathbb P_x(T\gt n,X_n=z)\, p(z,y). \]

Somando sobre \(z\) e \(y\), e separando o evento \(\{ T\leq n\} \), obtemos

\[ \begin{aligned} E_x\bigl[u(X_{T\wedge (n+1)})\bigr] & =E_x\bigl[\mathbf1_{\{ T\leq n\} }u(X_T)\bigr]\\ & \quad + E_x\left[\mathbf1_{\{ T\gt n\} }\sum _y p(X_n,y)u(y)\right]\\ & =E_x\bigl[u(X_{T\wedge n})\bigr]. \end{aligned} \]

A identidade segue, portanto, por indução.

Como \(u=1\) em \(A\), \(u=0\) em \(B\) e \(C\) é finito, existe \(M\lt \infty \) tal que \(|u(z)|\leq M\) em todos os estados. Em \(\{ T\leq n\} \) temos \(u(X_{T\wedge n})=u(X_T)\); em \(\{ T\gt n\} \), a diferença entre esses valores é no máximo \(2M\). Portanto,

\[ \left|E_x[u(X_{T\wedge n})]-E_x[u(X_T)]\right| \leq 2M\, \mathbb {P}_x(T\gt n)\longrightarrow 0. \]

A última passagem usa \(T\lt \infty \) quase certamente e a continuidade das probabilidades para eventos decrescentes. Como \(X_T\) pertence a \(A\cup B\),

\[ u(x)=E_x[u(X_T)] =\mathbb P_x(X_T\in A) =\mathbb P_x(H_A\lt H_B)=h(x). \]

Assim, a solução é única.

O adjetivo harmônica descreve a terceira equação: em cada estado interior, o valor de \(h\) é a média dos valores depois de um passo. Se \(R\) é a submatriz de \(P\) com linhas e colunas em \(C\) e

\[ v(x)=\sum _{a\in A}p(x,a), \]

a contribuição da fronteira é exatamente \(v(x)\), pois \(h=1\) em \(A\) e \(h=0\) em \(B\). Assim, as equações interiores podem ser escritas como

\[ (I-R)h_C=v. \]

Exemplo 2.29 (Quatro estados e duas barreiras absorventes)
Um jogador começa com \(2\) unidades. Em cada rodada, ganha ou perde uma unidade com probabilidades iguais e para ao atingir \(0\) (ruína) ou \(3\) (meta). A matriz da cadeia, na ordem \((0,1,2,3)\), é
\[ P=\begin{pmatrix} 1 & 0 & 0 & 0 \\ 1/2 & 0 & 1/2 & 0 \\ 0 & 1/2 & 0 & 1/2 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \end{pmatrix}. \]
Figura não resolvida: figuras/passeio-quatro-estados.tikz
Figura 2.19 O passeio termina ao chegar a \(0\) ou \(3\). Em cada estado interior, as duas direções têm probabilidade \(1/2\).
Escreva \(u_i=\mathbb P_i(H_3\lt H_0)\), a probabilidade de alcançar a meta partindo de \(i\) unidades. As condições na fronteira são \(u_0=0\) e \(u_3=1\). Condicionando pelo primeiro passo nos estados interiores,
\[ u_1=\frac12u_2,\qquad u_2=\frac12u_1+\frac12. \]
Substituindo a primeira equação na segunda,
\[ u_2=\frac14u_2+\frac12 \quad \Longrightarrow \quad \boxed {u_2=\frac23},\qquad u_1=\frac13. \]
Portanto, a probabilidade de alcançar a meta antes da ruína é precisamente \(2/3\), e não \(1\). Voltaremos a essa cadeia para calcular a duração média do jogo.

Exemplo 2.30 (O rato, o gato e o queijo)

Um rato percorre cinco salas ligadas pelas passagens indicadas na figura. A cada passo ele escolhe uniformemente uma das salas vizinhas. Na sala \(3\) está um gato; na sala \(5\), um pedaço de queijo. O passeio termina assim que o rato entra em uma dessas duas salas. Se ele começa na sala \(1\), qual é a probabilidade de encontrar o queijo antes do gato?

Figura não resolvida: figuras/rato-gato-queijo.tikz
Figura 2.20 O rato começa na sala \(1\). As arestas são passagens possíveis; as salas \(3\) (gato) e \(5\) (queijo) encerram o passeio. A sala \(4\) tem três vizinhas, enquanto \(1\) e \(2\) têm duas.

Escreva \(u(i)=\mathbb P_i(H_5\lt H_3)\). As condições de fronteira são \(u(3)=0\) e \(u(5)=1\). Pelas passagens desenhadas, a análise do primeiro passo fornece

\[ \begin{aligned} u(1)& =\frac12u(2)+\frac12u(4),\\ u(2)& =\frac12u(1)+\frac12u(3)=\frac12u(1),\\ u(4)& =\frac13\bigl(u(1)+u(3)+u(5)\bigr) =\frac{u(1)+1}{3}. \end{aligned} \]

Substituindo as duas últimas expressões na primeira,

\[ u(1)=\frac14u(1)+\frac{u(1)+1}{6} =\frac5{12}u(1)+\frac16, \]

e portanto

\[ \boxed {\mathbb P_1(H_5\lt H_3)=u(1)=\frac27}. \]

Embora existam duas salas de destino, a chance de sucesso não é \(1/2\): ela depende das passagens entre as salas. O desenho permite montar as equações sem escrever a matriz de transição completa.

Este problema é uma adaptação de um exemplo de Brémaud (2020).

Exemplo 2.31 (Um saldo mensal: atingir zero em quatro meses)

Uma pessoa acompanha um saldo mensal limitado aos valores \(0,1,2,3\). A cada mês recebe uma unidade e tem uma despesa \(D_n\) independente dos meses anteriores, com

\[ \mathbb P(D_n=0)=\frac14,\qquad \mathbb P(D_n=1)=\frac12,\qquad \mathbb P(D_n=2)=\frac14. \]

O saldo do fim do mês é limitado inferiormente por \(0\) e superiormente por \(3\):

\[ X_{n+1}=\min \{ 3,\max \{ 0,X_n+1-D_{n+1}\} \} . \]
Figura não resolvida: figuras/saldo-mensal.tikz
Figura 2.21 Em cada mês, um recebimento fixo é seguido de uma despesa aleatória. O saldo é limitado aos quatro estados indicados.

Começando com saldo \(2\), qual é a probabilidade de atingir \(0\) em algum dos próximos quatro meses? Não basta calcular \(\mathbb P_2(X_4=0)\): a pessoa pode chegar a zero e depois voltar a ter saldo positivo. Para registrar se a falta de saldo já ocorreu, modificamos a cadeia tornando \(0\) absorvente. A matriz da cadeia assim parada, na ordem \((0,1,2,3)\), é

\[ Q=\begin{pmatrix} 1 & 0 & 0 & 0 \\ 1/4 & 1/2 & 1/4 & 0 \\ 0 & 1/4 & 1/2 & 1/4 \\ 0 & 0 & 1/4 & 3/4 \end{pmatrix}. \]

Por exemplo, partindo de \(1\), chegar a zero no próximo mês exige \(D_{n+1}=2\), o que ocorre com probabilidade \(1/4\). Elevando a matriz à quarta potência, obtemos a linha de interesse:

\[ Q^4(2,\cdot )= \left(\frac{23}{128},\frac{49}{256}, \frac{77}{256},\frac{21}{64}\right). \]

Como \(0\) é absorvente na nova cadeia,

\[ \boxed {\mathbb P_2(H_{\{ 0\} }\leq 4)=Q^4(2,0) =\frac{23}{128}\approx 0{,}180}. \]

Transformar em absorvente o conjunto cuja visita queremos registrar converte uma pergunta sobre toda a trajetória em uma probabilidade de transição em tempo fixo.

Exemplo 2.32 (Conclusão de um curso de dois anos)
Considere os estados \(1=\) primeiro ano, \(2=\) segundo ano, \(G=\) conclusão e \(D=\) abandono, com matriz
\[ P= \begin{pmatrix} 0{,}25 & 0{,}60 & 0 & 0{,}15 \\ 0 & 0{,}20 & 0{,}70 & 0{,}10 \\ 0 & 0 & 1 & 0 \\ 0 & 0 & 0 & 1 \end{pmatrix}. \]
Se \(h(i)\) é a probabilidade de concluir o curso antes de abandonar, então \(h(G)=1\), \(h(D)=0\) e
\[ h(1)=0{,}25h(1)+0{,}60h(2), \qquad h(2)=0{,}20h(2)+0{,}70. \]
Da segunda equação, \(h(2)=7/8\); substituindo na primeira, obtemos \(h(1)=7/10\). Assim, nesse modelo, \(70\% \) dos estudantes que iniciam o primeiro ano concluem o curso.

Exemplo 2.33 (Ruína do jogador por análise de primeiro passo)

Voltemos ao jogo em que, a cada aposta, o capital aumenta uma unidade com probabilidade \(p\in (0,1)\) ou diminui uma unidade com probabilidade \(q=1-p\). O jogo termina ao atingir \(0\) (ruína) ou \(N\) (meta), com \(N\geq 2\). Seu tempo de término é \(H_{\{ 0,N\} }=H_0\wedge H_N\).

Se o capital inicial é \(i\), com \(0\leq i\leq N\), escrevemos

\[ u_i=\mathbb P_i(H_N\lt H_0), \]

a probabilidade de alcançar a meta antes da ruína. Como a absorção em uma das barreiras é quase certa, a probabilidade de ruína é seu complemento, \(1-u_i\).

A análise de primeiro passo, demonstrada a seguir, fornece

\[ u_i= \begin{cases} \dfrac {i}{N}, & p=q=\dfrac 12,\\[2mm] \dfrac {1-(q/p)^i}{1-(q/p)^N}, & p\ne q. \end{cases} \]

No jogo justo, a chance de atingir a meta é a proporção do capital inicial em relação a ela, e não necessariamente \(1/2\). Quando há deriva, as diferenças sucessivas dessa chance formam uma progressão geométrica.

Demonstração por primeiro passo ▼

De qualquer estado interior, uma sequência de \(N\) perdas leva a uma barreira com probabilidade pelo menos \(q^N\gt 0\). Em blocos de \(N\) passos,

\[ \mathbb {P}_i(H_{\{ 0,N\} }\gt kN)\leq (1-q^N)^k. \]

Assim, a absorção ocorre quase certamente e tem esperança finita. Pelo problema de Dirichlet,

\[ u_0=0,\qquad u_N=1,\qquad u_i=pu_{i+1}+qu_{i-1}\quad (0\lt i\lt N). \]

A equação de primeiro passo pode ser reescrita como

\[ p(u_{i+1}-u_i)=q(u_i-u_{i-1}). \]

Para aproveitar essa relação, ponha \(d_i=u_i-u_{i-1}\), a variação da probabilidade de sucesso quando a fortuna inicial aumenta de \(i-1\) para \(i\). Então

\[ d_{i+1}=\frac qp\, d_i,\qquad 1\leq i\lt N. \]

Portanto, as diferenças sucessivas formam uma progressão geométrica.

Se \(p=q=1/2\), temos \(d_{i+1}=d_i\), ou seja, todas as diferenças são iguais a \(d_1\). Como \(u_0=0\),

\[ u_i=\sum _{k=1}^{i}d_k=i\, d_1. \]

A condição \(u_N=1\) determina \(d_1=1/N\), e assim \(u_i=i/N\): no jogo justo, a probabilidade cresce linearmente com a fortuna inicial.

Se \(p\ne q\), escreva \(r=q/p\ne 1\). Pela recorrência, \(d_k=d_1r^{k-1}\) e, somando as diferenças,

\[ u_i=u_0+\sum _{k=1}^{i}d_k =d_1\sum _{k=0}^{i-1}r^k =d_1\, \frac{1-r^i}{1-r}. \]

Falta determinar \(d_1\). Usando a outra condição de fronteira,

\[ 1=u_N=d_1\, \frac{1-r^N}{1-r} \qquad \Longrightarrow \qquad d_1=\frac{1-r}{1-r^N}. \]

Substituindo na expressão de \(u_i\), encontramos

\[ \boxed {u_i=\frac{1-r^i}{1-r^N} =\frac{1-(q/p)^i}{1-(q/p)^N}.} \]

Como a absorção em \(0\) ou \(N\) ocorre quase certamente, a probabilidade de ruína é \(1-u_i\).

2.7 Tempos de saída

Probabilidades de saída resolvem um problema de fronteira harmônico. Tempos esperados de saída resolvem uma equação quase igual, mas com um termo \(1\): cada passo realizado antes de atingir o conjunto de destino acrescenta uma unidade de tempo.

Se \(C=S\setminus A\) e começamos em \(x\in C\), a cadeia pode visitar vários estados de \(C\) antes de entrar em \(A\). O relógio para na primeira entrada, no instante \(H_A\).

Figura não resolvida: figuras/tempos-saida-esquema.tikz
Figura 2.22 Uma trajetória ilustrativa do tempo de chegada a \(A\). O percurso destacado começa em \(x\in C\), atravessa estados de \(C\) e termina na primeira entrada em \(A\). Não é necessário que \(A\) seja absorvente.

Teorema 2.21

Equação de Poisson para o tempo de saída Seja \(A\subseteq S\), suponha que \(C=S\setminus A\) seja finito e que \(H_A\lt \infty \) quase certamente a partir de todo \(x\in C\). Então

\[ g(x)=E_x(H_A) \]

é a única solução de

\[ \begin{cases} g(x)=0,& x\in A,\\ g(x)=1+\displaystyle \sum _y p(x,y)g(y),& x\in C. \end{cases} \]

Demonstração ▼

Se \(C\) é vazio, a afirmação é imediata. Suponha \(C\) não vazio e escreva \(T=H_A\). Mostraremos primeiro que \(E_xT\) é finita. Para cada \(z\in C\), a hipótese de chegada quase certa permite escolher \(k_z\geq 1\) tal que \(\mathbb P_z(T\leq k_z)\gt 1/2\). Como \(C\) é finito, podemos tomar \(k=\max _{z\in C}k_z\), de modo que

\[ \mathbb P_z(T\gt k)\leq \frac12 \qquad \text{para todo }z\in C. \]

Se a cadeia ainda não chegou a \(A\) no instante \(jk\), ela está em algum estado de \(C\). Condicionando nesse estado e usando a propriedade de Markov,

\[ \begin{aligned} \mathbb P_x(T\gt (j+1)k) & =\sum _{z\in C}\mathbb P_x(T\gt jk,X_{jk}=z)\, \mathbb P_z(T\gt k)\\ & \leq \frac12\mathbb P_x(T\gt jk). \end{aligned} \]

Repetindo a desigualdade, obtemos \(\mathbb P_x(T\gt jk)\leq 2^{-j}\). Agrupando os instantes \(j k,\ldots ,(j+1)k-1\) na fórmula da cauda,

\[ E_xT=\sum _{n=0}^{\infty }\mathbb P_x(T\gt n) \leq k\sum _{j=0}^{\infty }2^{-j}=2k\lt \infty . \]

Como \(T\geq 1\) quando \(x\in C\), a análise do primeiro passo dá

\[ E_xT=1+\sum _y p(x,y)E_yT,\qquad x\in C, \]

e \(E_xT=0\) em \(A\). Portanto, \(g\) satisfaz as equações.

Para provar a unicidade, seja \(u\) outra solução real, com \(u=0\) em \(A\). A equação de primeiro passo pode ser iterada enquanto a cadeia não atingiu \(A\). Mais precisamente, para cada \(n\geq 0\),

\[ u(x)=E_x\left[ \sum _{j=0}^{n-1}\mathbf1_{\{ T\gt j\} } +u(X_{T\wedge n})\right]. \]

No instante inicial a identidade é trivial. Para passar de \(n\) a \(n+1\), em \(\{ T\leq n\} \) não há outro passo a contar; em \(\{ T\gt n\} \) temos \(X_n\in C\). Particionando esse evento segundo \(X_n=z\in C\), a propriedade de Markov dá

\[ \mathbb P_x(T\gt n,X_n=z,X_{n+1}=y) =\mathbb P_x(T\gt n,X_n=z)p(z,y). \]

A equação \(u(z)=1+\sum _y p(z,y)u(y)\) acrescenta então uma unidade e substitui \(u(X_n)\) pela média de \(u(X_{n+1})\). Isso estabelece a identidade por indução. Como a soma das indicadoras conta exatamente os instantes anteriores a \(T\),

\[ \sum _{j=0}^{n-1}\mathbf1_{\{ T\gt j\} }=T\wedge n, \qquad u(x)=E_x(T\wedge n)+E_x[u(X_{T\wedge n})]. \]

Como \(u=0\) em \(A\) e \(C\) é finito, existe \(M\lt \infty \) tal que \(|u|\leq M\). No evento \(\{ T\leq n\} \), o valor \(u(X_{T\wedge n})\) é zero. Assim,

\[ \left|E_x[u(X_{T\wedge n})]\right| \leq M\, \mathbb P_x(T\gt n)\longrightarrow 0. \]

Para o primeiro termo, a identidade de caudas truncadas dá

\[ E_x(T\wedge n) =\sum _{j=0}^{n-1}\mathbb P_x(T\gt j) \longrightarrow \sum _{j=0}^{\infty }\mathbb P_x(T\gt j) =E_xT. \]

É o limite das somas parciais de uma série não negativa de soma finita. Logo, \(u(x)=E_xT=g(x)\), o que prova a unicidade.

Exemplo 2.34 (Quanto dura o passeio de quatro estados?)
Retomemos o Exemplo 2.29. Escreva \(g(i)=E_i H_{\{ 0,3\} }\). Como o jogo termina nas barreiras, \(g(0)=g(3)=0\). Cada rodada realizada acrescenta uma unidade de tempo, e a análise de primeiro passo fornece
\[ g(1)=1+\frac12g(2),\qquad g(2)=1+\frac12g(1). \]
Substituindo a primeira equação na segunda,
\[ g(2)=\frac32+\frac14g(2) \quad \Longrightarrow \quad \boxed {g(2)=2},\qquad g(1)=2. \]
Assim, começando com duas unidades, o jogador disputa, em média, duas rodadas. As equações se parecem com as do exemplo anterior, mas o termo \(1\) tem um papel novo: ele contabiliza o passo que acaba de ser dado.

Além da duração média até a saída, interessa o número esperado de visitas a cada estado antes de atingir \(A\). A matriz fundamental reúne essas contagens.

Definição 2.11
Matriz fundamental Nas hipóteses do Teorema 2.21, suponha \(C=S\setminus A\) não vazio e finito. Considere a submatriz de transições entre os estados de \(C\),
\[ R=(p(x,y))_{x,y\in C}. \]
A matriz fundamental antes da saída de \(C\) é
\[ \boxed {N=I+R+R^2+\cdots =\sum _{n=0}^{\infty }R^n.} \]

Ao formar \(R\), conservamos apenas as transições entre estados de \(C\). Partindo de \(x\in C\), a cadeia pode permanecer em \(C\) no próximo passo ou entrar em \(A\). Por isso,

\[ \sum _{y\in C}R(x,y)=\mathbb P_x(X_1\in C)\leq 1. \]

A diferença entre essa soma e \(1\) é a probabilidade de entrar em \(A\) no primeiro passo. Assim, as linhas de \(R\) podem somar menos que \(1\).

Isso é importante ao calcular as potências de \(R\). Por exemplo,

\[ R^2(x,y)=\sum _{z\in C}p(x,z)p(z,y). \]

Só aparecem caminhos que, no primeiro passo, passam por um estado \(z\) de \(C\) e, no segundo, chegam a \(y\). Um caminho que entrasse em \(A\) e depois retornasse a \(C\) ficaria de fora. De modo geral, pela propriedade de Markov,

\[ R^n(x,y)=\mathbb P_x(X_n=y,\ H_A\gt n), \qquad n\geq 0,\quad x,y\in C. \]

Portanto, \(R^n(x,y)\) é a probabilidade de estar em \(y\) no instante \(n\) sem ter atingido \(A\) até esse instante. A fórmula inclui \(n=0\): como a cadeia começa em \(x\in C\), temos \(H_A\gt 0\) e \(R^0(x,y)=I(x,y)\).

Convergência da série. Pelo teorema anterior, \(E_xH_A\lt \infty \) para todo \(x\in C\). Como

\[ 0\leq R^n(x,y)\leq \mathbb P_x(H_A\gt n), \]

a fórmula da cauda fornece

\[ \sum _{n=0}^{\infty }R^n(x,y) \leq \sum _{n=0}^{\infty }\mathbb P_x(H_A\gt n) =E_xH_A\lt \infty . \]

Logo, a série que define \(N\) converge entrada por entrada. A mesma desigualdade mostra que \(R^n\to 0\). Para cada \(m\), a multiplicação de uma soma finita de matrizes dá

\[ (I-R)(I+R+\cdots +R^m)=I-R^{m+1}. \]

Passando ao limite, obtemos \((I-R)N=I\). Como \(I-R\) é uma matriz quadrada, isso mostra que é inversível e que

\[ \boxed {N=(I-R)^{-1}.} \]

Interpretação das entradas. Fixemos um estado \(y\in C\). Antes de chegar a \(A\), a cadeia pode visitar \(y\) nenhuma, uma ou várias vezes. O número dessas visitas é a variável aleatória

\[ V_y=\sum _{n=0}^{H_A-1}\mathbf1_{\{ X_n=y\} }. \]

Somamos apenas os instantes \(0,1,\ldots ,H_A-1\): o estado ocupado no instante \(H_A\) já pertence a \(A\) e não entra na contagem. Em particular, quando \(x=y\), a observação inicial é uma visita. Esta contagem difere de \(N(y)\), usada no estudo da recorrência: aquela começa em \(n=1\) e não é interrompida na saída; aqui contamos desde o instante inicial até a primeira chegada a \(A\).

Para passar das probabilidades às visitas esperadas, lembremos que a esperança de uma indicadora é a probabilidade do evento correspondente: \(E_x\mathbf1_B=\mathbb P_x(B)\). Além disso,

\[ \mathbf1_{\{ X_n=y,H_A\gt n\} } =\mathbf1_{\{ X_n=y\} }\mathbf1_{\{ H_A\gt n\} }. \]

O segundo fator faz com que uma visita só seja contada quando ocorre antes da chegada a \(A\). De fato, ele vale \(1\) exatamente para \(n=0,\ldots ,H_A-1\) e vale \(0\) depois disso. Consequentemente,

\[ \sum _{n=0}^{\infty }\mathbf1_{\{ X_n=y,H_A\gt n\} } =\sum _{n=0}^{H_A-1}\mathbf1_{\{ X_n=y\} }=V_y. \]

Podemos agora passar das probabilidades às visitas esperadas:

\[ \begin{aligned} N(x,y) & =\sum _{n=0}^{\infty }\mathbb P_x(X_n=y,H_A\gt n)\\ & =\sum _{n=0}^{\infty }E_x\mathbf1_{\{ X_n=y,H_A\gt n\} }\\ & =E_x\left[\sum _{n=0}^{\infty } \mathbf1_{\{ X_n=y,H_A\gt n\} }\right]\\ & =E_x\left[\sum _{n=0}^{H_A-1}\mathbf1_{\{ X_n=y\} }\right]\\ & =\boxed {E_xV_y}. \end{aligned} \]

A troca da soma pela esperança é permitida porque as indicadoras são não negativas (Lema 2.15). A última igualdade usa a identidade anterior, isto é, a definição de \(V_y\). Portanto, a entrada \(N(x,y)\) é o número esperado de visitas a \(y\) antes de atingir \(A\), quando partimos de \(x\). Ela não é, em geral, uma probabilidade.

Da contagem de visitas ao tempo de saída. Em cada instante \(n\lt H_A\), a cadeia ocupa exatamente um estado de \(C\). Nesse instante, portanto, exatamente uma das indicadoras \(\mathbf1_{\{ X_n=y\} }\), com \(y\in C\), vale \(1\); todas as outras valem \(0\). Assim, somar as visitas a todos os estados de \(C\) conta uma vez cada instante anterior à saída:

\[ \sum _{y\in C}V_y =\sum _{n=0}^{H_A-1}\ \sum _{y\in C}\mathbf1_{\{ X_n=y\} } =H_A. \]

Tomando esperanças, encontramos

\[ \boxed {E_xH_A=\sum _{y\in C}N(x,y).} \]

Em outras palavras, somar a linha de \(N\) correspondente ao estado inicial \(x\) fornece o tempo médio até a chegada a \(A\).

Também podemos reunir as equações de primeiro passo em notação matricial. Escrevamos \(C=\{ x_1,\ldots ,x_m\} \), na mesma ordem das linhas e colunas de \(R\), e definamos os vetores-coluna

\[ g_C= \begin{pmatrix} E_{x_1}H_A \\ \vdots \\ E_{x_m}H_A \end{pmatrix}, \qquad \mathbf1= \begin{pmatrix} 1 \\ \vdots \\ 1 \end{pmatrix}. \]

Assim, \(g_C\) não é uma matriz de transição: cada uma de suas \(m\) coordenadas é a duração média da cadeia até \(A\) para um estado inicial diferente. Para \(x\in C\), a equação de primeiro passo é

\[ E_xH_A=1+\sum _{y\in C}R(x,y)E_yH_A. \]

O termo \(1\) representa o primeiro passo; se ele levar a \(A\), o tempo restante será zero. Reunindo essas equações e usando \(N=(I-R)^{-1}\), temos

\[ g_C=\mathbf1+Rg_C \quad \Longleftrightarrow \quad (I-R)g_C=\mathbf1 \quad \Longrightarrow \quad \boxed {g_C=N\mathbf1.} \]

A coordenada de \(N\mathbf1\) associada a \(x\) é justamente a soma da linha de \(N\) correspondente a \(x\), como já havíamos obtido pela contagem de visitas.

Exemplo 2.35 (Uma matriz, três perguntas: conclusão, visitas e duração)

Retomemos o curso de dois anos do Exemplo 2.32. Os estados \(1\) e \(2\) são transientes; \(G\) (conclusão) e \(D\) (abandono) são absorventes. Separemos a matriz de transição em dois blocos: \(R\) reúne as transições dentro dos estados transientes, e \(K\) registra as transições desses estados para \(G\) e \(D\):

\[ R=\begin{pmatrix} 1/4 & 3/5 \\ 0 & 1/5 \end{pmatrix}, \qquad K=\begin{array}{c|cc}& G& D\\ \hline 1& 0& 3/20\\ 2& 7/10& 1/10 \end{array}. \]

A matriz fundamental pode ser calculada invertendo \(I-R\):

\[ N=(I-R)^{-1} =\begin{pmatrix} 4/3 & 1 \\ 0 & 5/4 \end{pmatrix}. \]

A primeira linha de \(N\) responde a duas perguntas: partindo do primeiro ano, quantas vezes, em média, o estudante estará em cada ano antes de concluir ou abandonar? Temos \(N(1,1)=4/3\) visitas esperadas ao primeiro ano, incluindo a observação inicial, e \(N(1,2)=1\) visita esperada ao segundo ano.

O valor \(N(1,2)=1\) é uma contagem média, não uma probabilidade. A chance de alcançar o segundo ano antes de abandonar é

\[ \mathbb P_1(H_2\lt H_D) =\frac{3/5}{1-1/4}=\frac45. \]

Uma vez no segundo ano, o número médio de visitas a ele, incluindo a primeira, é \(1/(1-1/5)=5/4\), porque em cada passo há probabilidade \(1/5\) de permanecer nesse estado. O produto

\[ \frac45\cdot \frac54=1=N(1,2) \]

mostra como uma probabilidade de chegada pode se transformar num número esperado de visitas.

Para calcular a probabilidade de terminar em cada estado absorvente, podemos sair de um estado transiente após \(0,1,2,\ldots \) transições dentro do conjunto \(\{ 1,2\} \). Somando essas possibilidades, obtemos

\[ B=(I+R+R^2+\cdots )K=NK =\begin{array}{c|cc}& G& D\\ \hline 1& 7/10& 3/10\\ 2& 7/8& 1/8 \end{array}. \]

Assim, começando no primeiro ano, a probabilidade de conclusão é \(7/10\), como havíamos encontrado por análise de primeiro passo, e a de abandono é \(3/10\).

Finalmente, a soma das entradas de cada linha de \(N\) dá o tempo esperado até chegar a \(G\) ou \(D\):

\[ E_1 H_{\{ G,D\} }=\frac43+1=\boxed {\frac73}, \qquad E_2 H_{\{ G,D\} }=\boxed {\frac54}. \]

A mesma matriz fornece, portanto, visitas esperadas, probabilidades de absorção e duração média.

Exemplo 2.36 (O computador revisitado: dias de uso e de reparo)

Voltemos ao computador do Exemplo 2.6. Antes do descarte, ele pode estar funcionando (\(F\)) ou em reparo (\(R\)). A matriz das transições entre esses dois estados é

\[ Q=\begin{pmatrix} 0{,}995 & 0{,}005 \\ 0{,}90 & 0{,}05 \end{pmatrix}. \]

O descarte ocorre quase certamente. De fato, partindo de \(F\), há probabilidade positiva de passar por \(F\to R\to D\) em dois dias; partindo de \(R\), há probabilidade \(0{,}05\) de ser descartado no próximo. Como o conjunto \(\{ F,R\} \) é finito, essas possibilidades permitem uma cota geométrica uniforme para o tempo de absorção.

A matriz fundamental é

\[ N=(I-Q)^{-1} =\begin{pmatrix} 3800 & 20 \\ 3600 & 20 \end{pmatrix}. \]

Por exemplo, a primeira linha mostra que um computador inicialmente em funcionamento passa, em média, \(\boxed {3800}\) dias funcionando e \(\boxed {20}\) dias em reparo antes do descarte, contando também a observação inicial. Assim,

\[ E_F H_D=3800+20=\boxed {3820}\ \text{dias}. \]

Se começamos com o computador em reparo, a segunda linha fornece \(E_RH_D=3600+20=3620\) dias.

Como verificação independente, as equações de primeiro passo para \(g_F=E_FH_D\) e \(g_R=E_RH_D\) são

\[ \begin{cases} g_F=1+0{,}995g_F+0{,}005g_R,\\ g_R=1+0{,}90g_F+0{,}05g_R. \end{cases} \]

A primeira dá \(g_F=g_R+200\); a segunda então dá \(g_R=3620\) e \(g_F=3820\), confirmando a matriz fundamental. O mesmo modelo fornece dois tipos de informação: duração total e tempo passado em cada estado.

Exemplo 2.37 (Contando visitas antes da ruína)
Retomemos o passeio justo com barreiras \(0\) e \(3\) dos Exemplos 2.29 e 2.34. Agora calcularemos quantas vezes cada estado interior é visitado antes da absorção. Os estados transientes são \(C=\{ 1,2\} \) e a submatriz correspondente é
\[ R=\begin{pmatrix} 0 & 1/2 \\ 1/2 & 0 \end{pmatrix}. \]
Logo,
\[ I-R= \begin{pmatrix} 1 & -1/2 \\ -1/2 & 1 \end{pmatrix}, \qquad (I-R)^{-1}= \begin{pmatrix} 4/3 & 2/3 \\ 2/3 & 4/3 \end{pmatrix}. \]
Partindo de \(1\), a cadeia visita em média \(4/3\) vezes o próprio estado \(1\) e \(2/3\) vez o estado \(2\) antes de atingir \(\{ 0,3\} \). A soma da primeira linha é
\[ \frac43+\frac23=2, \]
portanto \(E_1H_{\{ 0,3\} }=2\). Partindo de \(2\), a simetria fornece o mesmo tempo médio, com os papéis dos dois estados trocados. Assim, a mesma matriz registra tanto visitas esperadas a estados específicos quanto o tempo esperado total antes da absorção.

Exemplo 2.38 (Duração do jogo)
Nas condições do Exemplo 2.33, defina
\[ v_i=E_iH_{\{ 0,N\} }, \qquad 0\leq i\leq N. \]
Assim, \(v_i\) é o número médio de rodadas até o jogo terminar, quando o capital inicial é \(i\). Retomemos também \(u_i=\mathbb P_i(H_N\lt H_0)\), a probabilidade de atingir a meta antes da ruína. Mostraremos que
\[ v_i= \begin{cases} i(N-i),& p=q=\dfrac 12,\\[2mm] \dfrac {Nu_i-i}{p-q},& p\ne q. \end{cases} \]

No jogo justo, dobrar simultaneamente o capital inicial e a meta conserva a probabilidade de sucesso, mas multiplica por quatro a duração média. Quando há deriva, a duração depende também da direção favorecida pelas apostas.

Demonstração ▼

Já verificamos que o tempo \(H_{\{ 0,N\} }\) tem esperança finita. Como nenhuma rodada é necessária quando o jogo começa numa barreira, \(v_0=v_N=0\). Nos estados interiores, o primeiro passo consome uma rodada e deixa o capital em \(i+1\) ou \(i-1\). Portanto,

\[ v_i=1+pv_{i+1}+qv_{i-1}, \qquad 0\lt i\lt N. \]

Jogo justo: \(p=q=1/2\). Reorganizando a equação, obtemos

\[ v_{i+1}-2v_i+v_{i-1}=-2. \]

A segunda diferença é constante; por isso, procuramos uma solução quadrática \(v_i=-i^2+Ai+B\). De \(v_0=0\) vem \(B=0\) e, de \(v_N=0\),

\[ 0=-N^2+AN \qquad \Longrightarrow \qquad A=N. \]

Assim,

\[ \boxed {v_i=i(N-i).} \]

Jogo com deriva: \(p\ne q\). A equação homogênea associada é \(w_i=pw_{i+1}+qw_{i-1}\). Reescrevendo-a como

\[ p(w_{i+1}-w_i)=q(w_i-w_{i-1}), \]

vemos que, quando \(p\ne q\), suas soluções são \(w_i=A+B(q/p)^i\). Precisamos ainda de uma solução particular da equação que contém o termo \(1\). A função

\[ v_i^{(p)}=-\frac{i}{p-q} \]

serve, pois uma substituição direta fornece

\[ 1+p\left(-\frac{i+1}{p-q}\right) +q\left(-\frac{i-1}{p-q}\right) =-\frac{i}{p-q}. \]

Portanto, a solução geral pode ser escrita como

\[ v_i=A+B\left(\frac qp\right)^i-\frac{i}{p-q}. \]

Impondo \(v_0=0\), obtemos \(A=-B\), isto é,

\[ v_i=B\left[\left(\frac qp\right)^i-1\right] -\frac{i}{p-q}. \]

A outra fronteira, \(v_N=0\), determina a constante:

\[ 0=B\left[\left(\frac qp\right)^N-1\right] -\frac{N}{p-q} \quad \Longrightarrow \quad B=\frac{N}{(p-q)((q/p)^N-1)}. \]

Substituindo essa expressão em \(v_i\), chegamos a

\[ \begin{aligned} v_i& =\frac1{p-q} \left[N\, \frac{1-(q/p)^i}{1-(q/p)^N}-i\right]\\ & =\boxed {\frac{Nu_i-i}{p-q}}, \end{aligned} \]

pois a fração é exatamente a probabilidade \(u_i\) encontrada no exemplo anterior. A unicidade da equação de Poisson garante que essa solução é a esperança procurada.

No capítulo de martingais, obteremos essas probabilidades por uma segunda demonstração. A nova ferramenta conservará esperanças até a saída e evitará resolver novamente as equações de diferenças.

Exemplo 2.39 (Esperando cara seguida de coroa)
Lançamos repetidamente uma moeda justa, com lançamentos independentes, e paramos quando aparece o padrão cara–coroa. Use os estados \(0=\) nenhum prefixo útil, \(C=\) o último resultado foi cara e \(F=\) padrão completo. Se \(g_0\) e \(g_C\) são os tempos esperados restantes, então
\[ g_0=1+\frac12g_0+\frac12g_C, \qquad g_C=1+\frac12g_C+\frac12\cdot 0. \]
A segunda equação dá \(g_C=2\) e a primeira dá \(g_0=4\). Portanto, são necessários, em média, quatro lançamentos para observar cara seguida de coroa.

2.8 Problemas de síntese

O sapo em quatro folhas, uma rede elétrica e a manutenção de um computador reúnem as técnicas de transição, chegada e absorção. As soluções a seguir mostram como as mesmas equações respondem a perguntas sobre percursos, tempos e custos.

Exemplo 2.40 (O sapo precisa chegar à última folha)

Retomemos o sapo do Exemplo 2.1. As folhas \(A\), \(B\) e \(C\) formam um triângulo, e a folha \(D\) está ligada somente a \(C\). O sapo parte de \(A\), escolhe uniformemente uma folha vizinha em cada salto e quer chegar a \(D\).

Figura não resolvida: figuras/sintese-sapo-alvo.tikz
Figura 2.23 O mesmo grafo das quatro folhas, agora com a partida em \(A\) e a folha \(D\) destacada como alvo.

Quanto tempo levará, em média, para chegar a \(D\)? Escreva \(e_x=E_xH_D\). O problema de Poisson dá \(e_D=0\) e

\[ \begin{aligned} e_A& =1+\frac{e_B+e_C}{2},\\ e_B& =1+\frac{e_A+e_C}{2},\\ e_C& =1+\frac{e_A+e_B+e_D}{3}. \end{aligned} \]

Os estados \(A\) e \(B\) desempenham papéis simétricos, logo \(e_A=e_B=t\). Se escrevermos \(e_C=v\), as equações se reduzem a

\[ t=1+\frac{t+v}{2},\qquad v=1+\frac{2t}{3}. \]

A primeira fornece \(t=2+v\). Substituindo na segunda,

\[ v=1+\frac23(2+v) \quad \Longrightarrow \quad v=7,\qquad t=9. \]

Portanto,

\[ \boxed {E_AH_D=9\ \text{saltos}.} \]

E qual é a chance de atingir \(D\) antes de voltar pela primeira vez a \(A\)? Comecemos em \(B\) ou \(C\) e definamos \(u_x=\mathbb P_x(H_D\lt H_A)\). As condições de fronteira são \(u_A=0\), \(u_D=1\); pelo problema de Dirichlet,

\[ u_B=\frac{u_A+u_C}{2}=\frac{u_C}{2}, \qquad u_C=\frac{u_A+u_B+u_D}{3}=\frac{u_B+1}{3}. \]

Daí \(u_C=2/5\) e \(u_B=1/5\). Partindo de \(A\), o primeiro salto vai para \(B\) ou \(C\), cada um com probabilidade \(1/2\). Assim,

\[ \boxed {\mathbb P_A(H_D\lt T_A^+) =\frac12u_B+\frac12u_C=\frac3{10}.} \]

O tempo médio até o alvo e a chance de alcançá-lo antes do primeiro retorno descrevem aspectos distintos do percurso nesse grafo.

Exemplo 2.41 (Passeios aleatórios resolvem circuitos elétricos)

Considere o grafo à esquerda da figura: entre \(a\) e \(b\) existem dois caminhos de comprimento dois, passando por \(x\) e \(y\). Em cada vértice o passeio escolhe um vizinho uniformemente. Perguntamos pela probabilidade de voltar a \(a\) antes de atingir \(b\).

Ilustração: Problemas de síntese

Figura 2.24 Uma rede física de resistores, fios e bateria. Os grafos idealizados da figura seguinte permitem transformar potenciais elétricos em probabilidades de chegada.

Figura não resolvida: figuras/redes-eletricas.tikz
Figura 2.25 Duas redes com resistores de \(1\, \Omega \). No painel B, a ligação \(y\)–\(b\) foi removida. Os valores assinalados são potenciais, que também representam probabilidades de atingir \(a\) antes de \(b\).

Seja \(h(z)=\mathbb P_z(H_a\lt H_b)\), de modo que \(h(a)=1\) e \(h(b)=0\). No grafo A, pela análise de primeiro passo,

\[ h(x)=\frac{h(a)+h(b)}2=\frac12, \qquad h(y)=\frac12. \]

Partindo de \(a\), a primeira transição chega a \(x\) ou \(y\) com probabilidade \(1/2\). Portanto,

\[ \boxed {\mathbb P_a(T_a^+\lt H_b) =\frac12h(x)+\frac12h(y)=\frac12}. \]

Substitua agora cada aresta por um resistor de \(1\, \Omega \) e mantenha os potenciais \(v(a)=1\) e \(v(b)=0\). A lei de Kirchhoff nos vértices interiores exige que a soma das correntes seja zero:

\[ \sum _{w\sim z}(v(z)-v(w))=0 \quad \Longleftrightarrow \quad v(z)=\frac1{d(z)}\sum _{w\sim z}v(w). \]

São exatamente as equações satisfeitas por \(h\). Logo, os potenciais são as probabilidades de atingimento. Os dois caminhos possuem resistência \(2\, \Omega \) cada e estão em paralelo; a resistência efetiva entre \(a\) e \(b\) é, assim, \(1\, \Omega \).

Na rede B, eliminamos a aresta \(y\)–\(b\). A partir de \(y\), a próxima transição leva obrigatoriamente a \(a\), de modo que \(h(y)=1\), enquanto \(h(x)=1/2\) permanece igual. Consequentemente,

\[ \boxed {\mathbb P_a(T_a^+\lt H_b) =\frac12\cdot \frac12+\frac12\cdot 1=\frac34}. \]

A resistência efetiva passa a ser \(2\, \Omega \): o ramo que termina em \(y\) não conduz corrente até \(b\).

Podemos tornar exata a conexão entre resistência e probabilidade, para qualquer um desses grafos com resistores de \(1\, \Omega \). Com potenciais \(v(a)=1\) e \(v(b)=0\), a corrente total que sai de \(a\) é

\[ I=\sum _{z\sim a}(1-v(z)). \]

Como \(v(z)=\mathbb P_z(H_a\lt H_b)\), a análise do primeiro passo fornece

\[ \begin{aligned} I& =d(a)\left[1-\frac1{d(a)} \sum _{z\sim a}\mathbb P_z(H_a\lt H_b)\right]\\ & =d(a)\bigl[1-\mathbb P_a(T_a^+\lt H_b)\bigr]. \end{aligned} \]

A diferença de potencial entre \(a\) e \(b\) é uma unidade; pela definição de resistência efetiva, \(R_{\mathrm{ef}}(a,b)=1/I\). Portanto,

\[ \boxed {\mathbb P_a(T_a^+\lt H_b) =1-\frac1{d(a)R_{\mathrm{ef}}(a,b)}.} \]

Nos dois grafos, \(d(a)=2\). Com resistência \(1\, \Omega \) recuperamos a probabilidade \(1/2\); com resistência \(2\, \Omega \), obtemos \(3/4\). Retirar a ligação aumentou a resistência e a chance de voltar a \(a\) antes de atingir \(b\). A identidade explica a relação, em vez de apenas compará-las.

Exemplo 2.42 (O computador: vale contratar manutenção?)

Retomemos o computador do Exemplo 2.6. Em cada dia ele está funcionando (\(F\)), em reparo (\(R\)) ou definitivamente descartado (\(D\)). Antes do descarte, a submatriz das transições é

\[ Q=\begin{pmatrix} 0{,}995 & 0{,}005 \\ 0{,}90 & 0{,}05 \end{pmatrix}, \qquad N=(I-Q)^{-1} =\begin{pmatrix} 3800 & 20 \\ 3600 & 20 \end{pmatrix}. \]

As entradas de \(N\) contam os dias esperados em cada estado antes do descarte, incluindo o dia inicial. Assim, começando em funcionamento, o computador passa, em média, \(3800\) dias em \(F\) e \(20\) dias em \(R\).

Suponha que cada dia de funcionamento produza um resultado líquido de R\$ \(5\), cada dia em reparo custe R\$ \(120\) e o descarte tenha custo fixo de R\$ \(500\). A empresa pode pagar os reparos por dia ou contratar, no início, um plano de R\$ \(2000\) que cobre todos os dias de reparo até o descarte. Admitimos que a contratação não altere as probabilidades de transição nem os demais custos.

Figura não resolvida: figuras/sintese-computador-contrato.tikz
Figura 2.26 Duas formas de pagamento para os mesmos tempos aleatórios de funcionamento e reparo. A comparação é feita pelo custo esperado.

Sem contrato, o valor esperado do resultado acumulado é

\[ \begin{aligned} E_F L_{\mathrm{avulso}} & =5\, N(F,F)-120\, N(F,R)-500\\ & =5\cdot 3800-120\cdot 20-500 =\boxed {\text{R\$ }16100}. \end{aligned} \]

Com o plano de manutenção, pagamos uma única vez pelos reparos, de modo que

\[ E_F L_{\mathrm{contrato}} =5\cdot 3800-2000-500 =\boxed {\text{R\$ }16500}. \]

Portanto, segundo o critério do resultado esperado, o contrato é preferível por R\$ \(400\). A vantagem não se repete necessariamente em cada trajetória, pois o número efetivo de dias em reparo é aleatório.

A comparação desconsidera juros, inflação, aversão ao risco e mudanças na qualidade dos reparos. Para comparar com a compra imediata de outro computador, precisaríamos também modelar seu custo e seu funcionamento. A comparação econômica obtida pela matriz fundamental permanece condicionada a essas hipóteses.

A análise de primeiro passo relaciona, assim, percursos, tempos e custos. A interpretação das respostas acompanha a modelagem de cada situação.

2.9 Modelos ocultos de Markov*

O engajamento de um usuário não é observado diretamente: registramos ações, como cliques ou dias sem acesso. Um usuário engajado pode passar um dia sem clicar, e um usuário pouco engajado pode clicar por acaso. O modelo distingue, assim, o estado que evolui da observação imperfeita desse estado.

Definição 2.12
Modelo oculto de Markov Um modelo oculto de Markov, abreviado HMM, do inglês hidden Markov model, é formado por uma cadeia de Markov \((X_n)\), com distribuição inicial \(\mu _0\) e matriz de transição \(P\), e por uma sequência de observações \((Y_n)\). Os estados \(X_n\) não são observados diretamente; em seu lugar, observamos \(Y_n\). Condicionadas à trajetória dos estados, as observações são independentes, e a lei de \(Y_n\) depende apenas do estado \(X_n\):
\[ \mathbb {P}(Y_n=y\mid X_0,X_1,\ldots )=b_{X_n}(y). \]
As funções \(b_i\) são as probabilidades de emissão. Para manter a notação simples, trabalharemos nesta seção com observações discretas; para observações contínuas, as probabilidades de emissão são substituídas por densidades.

Ilustração: Modelos ocultos de Markov *

Figura 2.27 Os estados ocultos formam uma cadeia de Markov. Cada observação depende do estado oculto do mesmo instante. Dada a trajetória dos estados, as observações são independentes; sem esse condicionamento, elas podem ser dependentes.

Se observássemos \(X_n\), bastaria usar a matriz \(P\) para prever o próximo estado. Como vemos apenas \(Y_n\), não sabemos com certeza onde a cadeia está. Em vez de um estado, precisamos carregar uma distribuição sobre os estados possíveis.

A descrição acima determina a lei conjunta. A Proposição 2.1 fornece a probabilidade da trajetória oculta; multiplicamos essa probabilidade pelas emissões condicionalmente independentes. Escrevendo \(x_{0:n}=(x_0,\ldots ,x_n)\) e analogamente \(y_{0:n}\),

\[ \mathbb {P}(x_{0:n},y_{0:n}) =\mu _0(x_0)\prod _{k=1}^n p_{x_{k-1}x_k} \prod _{k=0}^n b_{x_k}(y_k). \]

Os fatores correspondem à distribuição inicial, às transições e às emissões. Essa fatoração permite calcular a distribuição do estado oculto a partir das observações.

O problema de filtragem é o seguinte: depois de observar \(Y_0,\ldots ,Y_n\), qual é a nossa distribuição para o estado atual \(X_n\)? Definimos

\[ r_n(j) =\mathbb {P}(X_n=j\mid Y_0=y_0,\ldots ,Y_n=y_n). \]

Quando chega uma nova observação, a atualização ocorre em dois movimentos. Primeiro deixamos a cadeia evoluir, sem ainda olhar o novo dado. Depois usamos o novo dado para corrigir a previsão:

\[ r_n \; \xrightarrow {\ \text{previsão pela cadeia}\ }\; \widetilde r_{n+1} \; \xrightarrow {\ \text{correção pela observação}\ }\; r_{n+1}. \]

O primeiro passo combina as transições da cadeia com a hipótese de que cada emissão depende apenas do estado oculto do mesmo instante; o segundo usa a regra de Bayes para incorporar a nova observação.

Proposição 2.22
Filtragem: previsão e correção Suponha que
\[ r_n(i)=\mathbb {P}(X_n=i\mid Y_{0:n}=y_{0:n}). \]
Antes de observar \(Y_{n+1}\), a distribuição prevista do novo estado é
\[ \widetilde r_{n+1}(j) =\mathbb {P}(X_{n+1}=j\mid Y_{0:n}=y_{0:n}) =\sum _i r_n(i)p_{ij}. \]
Depois de observar \(Y_{n+1}=y_{n+1}\), corrigimos essa distribuição por
\[ r_{n+1}(j) =\frac{b_j(y_{n+1})\, \widetilde r_{n+1}(j)}{\displaystyle \sum _k b_k(y_{n+1})\, \widetilde r_{n+1}(k)}. \]
No instante inicial,
\[ r_0(j) =\frac{\mu _0(j)b_j(y_0)}{\displaystyle \sum _k\mu _0(k)b_k(y_0)}. \]

Demonstração ▼

Comecemos pela previsão. Condicionamos segundo o estado atual:

\[ \begin{aligned} \mathbb {P}(X_{n+1}=j\mid Y_{0:n}=y_{0:n}) & = \sum _i \mathbb {P}(X_{n+1}=j\mid X_n=i,Y_{0:n}=y_{0:n})\\ & \hspace{3.2em}\times \mathbb {P}(X_n=i\mid Y_{0:n}=y_{0:n}). \end{aligned} \]

A propriedade de Markov descreve a relação entre os estados ocultos. Para incluir as observações, usamos também a hipótese de emissão. Na fatoração da lei conjunta, com \(x_n=i\), o fator final é \(p_{ij}\), que não depende dos estados ou das observações anteriores. Para \(n\geq 1\),

\[ \begin{aligned} & \mathbb P(X_{n+1}=j,X_n=i,Y_{0:n}=y_{0:n})\\ & =\sum _{x_0,\ldots ,x_{n-1}} \mu _0(x_0)b_{x_0}(y_0) \left(\prod _{m=1}^{n}p_{x_{m-1}x_m}b_{x_m}(y_m)\right)p_{ij}\\ & =p_{ij}\, \mathbb P(X_n=i,Y_{0:n}=y_{0:n}). \end{aligned} \]

Para \(n=0\), a mesma igualdade é simplesmente \(\mu _0(i)b_i(y_0)p_{ij}=p_{ij}\mathbb P(X_0=i,Y_0=y_0)\). Quando o evento condicionado tem probabilidade positiva, a divisão mostra que o primeiro fator da soma anterior é \(p_{ij}\); o segundo é \(r_n(i)\). Estados com \(r_n(i)=0\) não contribuem para a soma. Obtemos, portanto,

\[ \widetilde r_{n+1}(j)=\sum _i r_n(i)p_{ij}. \]

Agora chega a observação \(Y_{n+1}=y_{n+1}\). Pela regra de Bayes,

\[ \begin{aligned} r_{n+1}(j) & = \frac{ \mathbb {P}(Y_{n+1}=y_{n+1}\mid X_{n+1}=j,Y_{0:n}=y_{0:n}) \, \widetilde r_{n+1}(j)}{\mathbb {P}(Y_{n+1}=y_{n+1}\mid Y_{0:n}=y_{0:n})}. \end{aligned} \]

A hipótese de emissão transforma o primeiro fator do numerador em \(b_j(y_{n+1})\). Para obter o denominador, somamos o numerador sobre todos os estados possíveis. Surge exatamente

\[ \sum _k b_k(y_{n+1})\, \widetilde r_{n+1}(k). \]

A fórmula para \(r_0\) é o mesmo argumento de Bayes aplicado à primeira observação.

A multiplicação por \(P\) faz a previsão: mesmo sem receber informação nova, nossa crença sobre o estado muda porque o próprio sistema evolui. A multiplicação por \(b_j(y_{n+1})\) faz a correção: estados que explicam melhor a observação recebem mais peso. A normalização final apenas faz esses novos pesos somarem um.

Toda a história \(y_0,\ldots ,y_n\) influencia o futuro através de \(r_n\). Depois de calcular essa distribuição, não precisamos refazer os cálculos desde o início quando chega o próximo dado. O vetor \(r_n\) é o nosso estado de conhecimento sobre a cadeia oculta. Essa recursão é frequentemente chamada de algoritmo forward.

Exemplo 2.43 (Engajamento latente e cliques observados)

Tome \(X_n\in \{ E,D\} \), onde \(E\) significa engajado e \(D\), desengajado, e \(Y_n\in \{ C,S\} \), onde \(C\) significa clique e \(S\), silêncio no dia. Suponha

\[ P=\begin{pmatrix} 0{,}8 & 0{,}2 \\ 0{,}3 & 0{,}7 \end{pmatrix}, \qquad \mu _0=(1/2,1/2), \qquad \begin{array}{c|cc}& C& S\\ \hline E& 0{,}9& 0{,}1\\ D& 0{,}2& 0{,}8 \end{array}. \]

Considere a sequência de observações

\[ C,\qquad S,\qquad C. \]

Antes de qualquer observação, atribuímos probabilidades iguais aos dois estados. O primeiro dado é um clique. Como um clique é muito mais provável em \(E\) do que em \(D\), Bayes produz

\[ r_0 =\frac{(0{,}5\cdot 0{,}9,\; 0{,}5\cdot 0{,}2)}{0{,}5\cdot 0{,}9+0{,}5\cdot 0{,}2} =\left(\frac9{11},\frac2{11}\right). \]

Assim, depois do clique, a probabilidade de engajamento é aproximadamente \(0{,}818\).

No dia seguinte, antes de observar qualquer ação, fazemos a previsão:

\[ \widetilde r_1=r_0P =\left(\frac{39}{55},\frac{16}{55}\right). \]

A probabilidade prevista de engajamento é agora aproximadamente \(0{,}709\). Ela mudou mesmo antes de chegar um novo dado: o estado oculto também pode ter mudado.

Observamos então silêncio. Sob \(E\), essa observação tem probabilidade \(0{,}1\); sob \(D\), probabilidade \(0{,}8\). Multiplicamos a previsão por esses dois pesos:

\[ \left(\frac{39}{55}\cdot 0{,}1,\; \frac{16}{55}\cdot 0{,}8\right) =\left(\frac{39}{550},\frac{128}{550}\right). \]

Normalizando,

\[ r_1 =\left(\frac{39}{167},\frac{128}{167}\right). \]

A probabilidade de engajamento cai para aproximadamente \(0{,}234\). Ela não cai a zero: silêncio é evidência contra engajamento, não uma observação direta do estado.

Antes da terceira observação,

\[ \widetilde r_2=r_1P =\left(\frac{348}{835},\frac{487}{835}\right). \]

A probabilidade prevista de engajamento sobe para aproximadamente \(0{,}417\), pois a matriz permite que um usuário desengajado volte a se engajar. Agora observamos um clique. A correção dá

\[ r_2 = \frac{\left(\frac{348}{835}\cdot 0{,}9,\; \frac{487}{835}\cdot 0{,}2\right)}{\frac{348}{835}\cdot 0{,}9+ \frac{487}{835}\cdot 0{,}2} = \left(\frac{1566}{2053},\frac{487}{2053}\right). \]

A probabilidade de engajamento volta a aproximadamente \(0{,}763\).

O percurso completo pode ser lido em duas etapas:

\[ \begin{aligned} 0{,}5 & \xrightarrow [\text{clique}]{\text{correção}}0{,}818 \xrightarrow {\text{previsão}}0{,}709 \xrightarrow [\text{silêncio}]{\text{correção}}0{,}234\\[2pt] 0{,}234 & \xrightarrow {\text{previsão}}0{,}417 \xrightarrow [\text{clique}]{\text{correção}}0{,}763. \end{aligned} \]

Entre observações, a matriz de transição atualiza a previsão; cada nova observação a corrige. A filtragem repete essas duas operações.

Em uma cadeia observada, registramos o próprio \(X_n\). No HMM, registramos \(Y_n\) e mantemos uma distribuição sobre \(X_n\). Por isso, \((Y_n)\) em geral não é uma cadeia de Markov: saber apenas a última observação pode perder informação que as observações anteriores forneceram sobre o estado oculto.

Para ir além. A filtragem é apenas uma das perguntas possíveis em modelos ocultos de Markov. Podemos usar observações futuras para rever o que acreditávamos sobre estados passados (smoothing), procurar uma trajetória oculta particularmente plausível (problema associado ao algoritmo de Viterbi) ou estimar a matriz de transição e as probabilidades de emissão a partir dos próprios dados, por exemplo com o algoritmo de Baum–Welch. Esses temas são tratados em Rabiner (1989) e, com numerosos exemplos de séries temporais, em Zucchini et al. (2016).

2.10 Exercícios

Os exercícios retomam a construção de matrizes, a probabilidade de trajetórias, os critérios de recorrência, a propriedade forte de Markov e os problemas de absorção.

Exercício 2.1
Probabilidades de caminhos e histórias parciais Considere uma cadeia em \(\{ 1,2,3\} \) com distribuição inicial \(\mu =(1/2,1/4,1/4)\) e matriz
\[ P=\begin{pmatrix} 1/2 & 1/2 & 0 \\ 1/4 & 1/2 & 1/4 \\ 0 & 1/2 & 1/2 \end{pmatrix}. \]
Calcule \(\mathbb P(X_0=1,X_1=2,X_2=3)\) e \(\mathbb P(X_1=2,X_2=3)\). Depois encontre
\[ \mathbb P(X_2=3\mid X_0\in \{ 1,3\} ,X_1=2). \]
Explique por que a informação parcial sobre \(X_0\) não muda a última probabilidade depois de conhecido \(X_1\).

Exercício 2.2
Contar visitas e decidir recorrência Seja \(0\lt r\lt 1\) e considere a cadeia nos estados \(\{ 0,1\} \) com
\[ P=\begin{pmatrix} 1 & 0 \\ 1-r & r \end{pmatrix}. \]
Partindo de \(1\), calcule \(P^n(1,1)\) e a esperança do número total de visitas ao estado \(1\), incluindo o instante inicial. Encontre \(\mathbb P_1(T_1^+\lt \infty )\) e use o critério de contagem de visitas para classificar os dois estados.

Exercício 2.3
Um estado que guarda dois dias Um serviço registra \(Y_n=1\) quando há sobrecarga no dia \(n\) e \(Y_n=0\) caso contrário. A probabilidade de sobrecarga amanhã depende apenas do par \((Y_{n-1},Y_n)\) e vale \(0{,}1\), \(0{,}6\), \(0{,}3\) e \(0{,}8\) nos pares \(00\), \(01\), \(10\) e \(11\), respectivamente. Suponha que todos esses históricos tenham probabilidade positiva. Explique por que registrar apenas \(Y_n\) não produz uma cadeia de Markov e construa a matriz do processo dos pares, nessa ordem de estados.

Exercício 2.4
Três passos e caminhos intermediários Na ruína com barreiras \(0\) e \(4\), use probabilidade de ganho \(p=0{,}6\). Construa \(P\) e calcule \(P^3(1,4)\) e \(P^3(1,0)\). Confira as entradas por Chapman–Kolmogorov e pela enumeração dos caminhos, lembrando que as barreiras são absorventes.

Exercício 2.5
Meta, risco e duração Um jogador começa com duas unidades e encerra o jogo ao chegar a zero ou seis. Calcule a chance de atingir seis e a duração média quando \(p=1/2\) e quando \(p=3/5\). Explique por que aumentar a chance de sucesso não obriga a duração média a diminuir.

Exercício 2.6
Recomeçar ao atingir um nível No passeio justo com barreiras absorventes \(0\) e \(5\), comece em \(X_0=2\) e defina
\[ T=\min \{ n\geq 0:X_n\in \{ 0,3\} \} , \qquad \tau =\min \{ n\geq 0:X_n\in \{ 0,5\} \} . \]
Explique por que \(T\) é um tempo de parada e calcule \(\mathbb P_2(X_T=3)\). Use a propriedade forte de Markov para calcular \(\mathbb P_2(X_\tau =5\mid X_T=3)\) e \(E_2[\tau -T\mid X_T=3]\), indicando de qual estado a cadeia recomeça. Deduza \(\mathbb P_2(X_\tau =5)\) por esse caminho intermediário e compare com a fórmula direta da ruína.

Exercício 2.7
Visitas antes da absorção No jogo justo com barreiras \(0\) e \(5\), comece com duas unidades. Use a matriz fundamental dos estados \(1,2,3,4\) para calcular o número esperado de visitas ao estado \(3\) antes da absorção, incluindo o instante inicial na contagem quando cabível. Some a linha correspondente ao estado inicial e compare com a fórmula da duração média.

2.11 Exercícios complementares*

Exercício 2.8
Filtragem com dois dias* No modelo da Seção 2.9, observe silêncio no dia 0 e um clique no dia 1. Calcule a distribuição filtrada em cada dia e a probabilidade do clique no dia 1 dada a primeira observação.

Exercício 2.9
Emissões que não distinguem estados* Suponha que \(b_E(y)=b_D(y)\) para todo \(y\). Mostre, pela atualização de Bayes, que a nova observação não muda a distribuição prevista do estado. Mostre também que, nesse modelo, a lei da sequência de observações não depende da matriz de transição dos estados ocultos. Por que essa matriz não pode ser identificada apenas a partir das observações?

Exercício 2.10
Dependência entre observações* No exemplo de engajamento, calcule \(\mathbb {P}(Y_1=C\mid Y_0=C)\) e \(\mathbb {P}(Y_1=C\mid Y_0=S)\). Explique por que valores diferentes são compatíveis com a independência condicional das emissões exigida pelo HMM.